12 de out de 2009

Minibiografia de Dante Alighieri

Como Dante utiliza muitas referências autobiográficas para discorrer sobre a vida moral, política e espiritual, é útil contemplar com mais pormenor o que se sabe sobre ele e que está narrado fragmentariamente em suas obras.
“…Era nosso poeta de medíocre estatura, e tinha o rosto alargado e o nariz aquilino, as mandíbulas grandes, e o lábio inferior tão saliente que pouco do superior sobressaía, os ombros algo encurvados, e os olhos antes grandes do que pequenos, e a tez morena, e os cabelos e a barba crespos e negros, e sempre melancólico e pensativo” (Giovanni Boccaccio). Nasceu em Florença, em 1265.
Esta importante cidade chegaria a ser o centro virtual da Renascença italiana, cujo florescer tinha por raízes os tempos de Dante. Em sua época, o capital móvel e o comércio comunal tornaram as repúblicas italianas litorâneas centros poderosíssimos de vida política, econômica e cultural, Florença de modo particular. O novo dinamismo burguês abalava os alicerces sociais e os costumes herdados do feudalismo. Não à toa foram tempos de heresias e do heroísmo dos santos mendicantes Domingos e Francisco, de avanço democrático e do corporativismo trabalhista.
Concretamente, nas áreas setentrionais da Toscana, Lombardia e Romanha, as rivalidades mantinham em armas os habitantes dos minúsculos Estados, que se moviam guerras contínuas. O Pontificado Romano via‑se na contingência de dedicar‑se cada vez mais à ação política e militar para opor um dique à desordem avassaladora.
As duas tradicionais facções italianas, importadas do dissídio entre dois grupos germânicos, eram a dos guelfos (oriundos da casa nobiliárquica dos Wolf), partidários de um regime confederativo, e a dos gibelinos (originários dos Wibling), favoráveis à supremacia absoluta e incontestável do imperador. Estes eram compostos pela antiga aristocracia feudal enquanto aqueles o eram pela minoria burguesa e artesãos.
A própria legenda do império alemão era Sacro Império Romano, significando o antigo sonho germânico de suceder Roma na dominação do mundo civilizado. Os alemães observavam zelosamente a tradição de os imperadores tedescos serem sagrados pelo papa, mas na prática sua jurisdição só era geralmente admitida e aceita ao pé dos Alpes. Entretanto, Inocêncio III (1198-1216), sagrou Frederico II, neto de Frederico Barba Roxa e filho de Henrique VI da Suábia com Constança da Apúlia e da Sicília, imperador do Sacro Império, o que deixou bem marcada a dominação ao norte e ao sul da península. Por isso, os guelfos comportavam alguma variedade de tendência, desde a reivindicação da autonomia regional à entrega da Itália ao governo papal.
Dante procedia de uma família romana nobre, há muito fixada em Florença, mas então decadente. Seu trisavô Cacciaguida casara‑se com uma jovem de Ferrara, da família Alighieri, e daí o nome adotado pelos filhos. Seu pai era serventuário e passava por um período adverso, pois, na qualidade de guelfo, era alvo da animosidade do partido gibelino então dominante. Seu avô e provavelmente seu pai foram exilados, mas os guelfos conseguiram se reabilitar tomando o poder, mediante resistência armada e aproveitando‑se da invasão perpetrada por Carlos II d’Anjou, Conde da Provença, da linhagem dos Capetos, reis de França.
A infância de Dante transcorreu assim no seio da família recomposta e num ambiente inusitadamente mais estável de Florença. Eram vizinhos dos Donati e do rico negociante Folco Portinari, pai de Beatriz, por quem Dante se apaixonou aos nove anos.
Estudou com os franciscanos até 1280. Tendo morrido seus genitores e despontando sua vocação intelectual e o desejo de prosseguir nos estudos, passou a receber a educação de Brunetto Latini, escritor e filósofo de grande reputação. Entre seus condiscípulos estavam o futuro grande pintor Giotto de Bondone e Forese Donati. Guido Cavalcanti e outros consagrados poetas florentinos já haviam passado pelos mesmos bancos.
Aos 18 anos, Dante reencontrou Beatriz, que o saudou na rua. Inspirado por sua beleza, começou a compor os poemas‑enigma do que seria sua obra de juventude, Vita nuova. Tendo remetido as poesias aos colegas e aos poetas mais velhos, acabou por travar grande amizade com Guido Cavalcanti. Mas Dante sabia que seu amor era impossível: sendo de família modesta e sem ter ensaiado os passos da vida prática, não tinha a mínima possibilidade de qualquer sucesso futuro junto à herdeira dos Portinari.
Ingenuamente, para evitar que percebessem sua paixão, passou a fazer tentativas de despistamento com outras moças florentinas, o que lhe valeu certa fama inconveniente. Contudo, seu sucesso nas letras começava a afirmar‑se. Em 1287, Beatriz foi dada em casamento a Simão de Bardi, cavaleiro e próspero homem de negócios, o que não interrompeu nele o culto por sua musa inspiradora.
Dante conheceu em 1289 a Carlos Martel, filho de Carlos II d’Anjou e herdeiro da Apúlia, por quem sempre devotou admiração, apesar de o posicionamento guelfo de sua família, o que talvez fosse um prenúncio de sua futura mudança política.
Como tantos outros jovens de sua idade, serviu no exército aquele ano. Lutou pela comuna de Florença como cavaleiro na batalha de Campaldino e, em 1290, da conquista do castelo pisano de Caprona. Por então, recebeu a surpreendente notícia da morte de Beatriz.
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