11 de out de 2009

A Commedia: purgatório e paraíso


O purgatório
Passando por Lúcifer, os poetas seguem por um caminho subterrâneo que os leva até o outro lado da Terra. O purgatório está separado do mundo habitado por um imenso oceano, numa ilha cujo acesso é dificultado por um mar agitado e tempestades que afundam qualquer embarcação que tente se aproximar, como o navio de Ulisses. A topografia póstuma reflete a astronomia ptolemaica: a Terra, no centro do Universo, esférica, reúne num único hemisfério os três continentes então conhecidos e, nas antípodas de Jerusalém, está a ilha da montanha do purgatório. A elevação é tão alta que ultrapassa a esfera do ar e penetra na esfera do fogo, alcançando o céu.
Entre os mundos descritos na Commedia, a concepção do purgatório como uma montanha é, até onde se sabe, uma criação original de Dante. Os outros livros, do Inferno e do Paradiso, falam de reinos comumente associados ao mundo subterrâneo ou à morada dos deuses e escolhidos. Na representação dantesca, o purgatório serve como uma escada para o céu, ligando a superfície terrestre às portas do paraíso. Chegar lá, porém, não é tão fácil quanto chegar no inferno, cujas portas estão sempre abertas.
Uma vez na ilha, é preciso ter fôlego de alpinista para escalar os rochedos que levam à entrada do purgatório. No sopé fica o ante-purgatório, dividido em duas cornijas. Na primeira, esperam os que foram excomungados (canto III); na segunda, aguardam a oportunidade de sofrer as penas purgativas aqueles que tardiamente se arrependeram dos seus pecados, ou por negligência (canto IV), ou por atrasar a penitência para a hora da morte (canto V), ou por outros interesses (canto VI).
Os poetas chegam à Porta do Purgatório (canto IX), que é estreita e fechada com duas chaves. Um anjo armado com uma espada guarda a entrada. Iniciam sua ascensão passando por sete círculos ou terraços, um mais alto que o outro. As almas sofrem períodos de tempo em um ou mais terraços de acordo com os pecados capitais que tenha cometido em vida, apresentados como formas corrompidas do Amor. As penas são terríveis, mas as almas cumprem-nas sem reclamar, na esperança de entrar no paraíso.
Em contraste com o inferno, no purgatório não há seres mitológicos. Em vez dos demônios, encontram anjos protegendo a montanha. A principal atração são personalidades conhecidas de Dante, grandes estadistas, membros do clero e artistas que narram suas histórias, profetizam o futuro e pedem orações para encurtar seu tempo de penitência.
A entrada de cada círculo do purgatório é guardada por um anjo, que purifica a alma que sobe ao próximo nível e profere uma benção tirada do sermão da montanha. Em cada círculo ocorrem representações do pecado e de sua virtude oposta de diversas maneiras diferentes, que Dante contempla intrigado. Hinos, salmos e orações são cantados pelas almas em cada cornija.
Nas três cornijas do baixo‑purgatório é purificado o amor pervertido: pelo orgulho (canto X), pela inveja (canto XIII) e pela ira e o rancor (canto XVI).
A passagem do tempo durante a viagem é rigorosamente medida a partir da posição do Sol, da Lua e das estrelas. Dante adentrara a floresta escura na Quinta‑feira Santa, chegando à ilha quando os primeiros raios de Sol iluminavam o domingo de Páscoa, terminando essa etapa de sua viagem três dias depois.
A leitura do Purgatorio é uma metáfora da obra. No médio‑purgatório purifica‑se o amor falho, isto é, o pecado da preguiça (canto XVIII). Aqui, no exato ponto central da obra — numa característica união medieval de forma e substância — Virgílio aparece fazendo uma importante digressão em que explica o fulcro do universo como um todo e em cada uma de suas partes: o amor.
91 Relembra que o Criador como a criatura
não se compreendem sem o dom do amor,
ou natural, ou de vontade pura.

94 O natural é infenso a erro ou torpor,
mas o outro se defrauda em seu efeito,
ou por excesso, ou falta de vigor.

97 Dês que ao primeiro bem tenda direito,
e se volva ao segundo moderado,
causa não pode ser de algum defeito.

100 Mas quando ao mal procede, incontrolado,
ou menos do que deve o zelo acende,
contra o Criador opera o ser criado.

103 E, pois, um tal amor, ao que se entende,
é que nos leva a toda perfeição,
como também à ação que a Deus ofende.

Ainda que Dante lance mão da mais moderna ciência de seu tempo, não confunde os acidentes materiais com as escolhas morais e sabe que todos os amores são ordenados ao Amor Subsistente, “que move o sol, como as estrelas” (Paradiso, XXXIII, 145); o Amor encaixa‑se perfeitamente num mundo físico hierarquizado.
Ao ler o Purgatorio, somos impelidos a subir a montanha porque a recompensa (o paraíso e Beatriz) encontra-se no seu cume. Não há grandes momentos dramáticos isolados na obra, como ocorre no Inferno, mas o movimento da história é impulsionado pela necessidade de se chegar ao topo da montanha. O autor não oferece uma recompensa imediata para cada encontro, mas pede que tenhamos paciência e que esperemos para ver o que ele nos oferecerá no final. à medida em que subimos, o personagem de Dante cresce, e supera o seu mestre Virgílio. Os acontecimentos dos cinco cantos finais, de fato, surpreendem, e superam qualquer “grande” momento encontrado no Inferno.
No alto‑purgatório é purificado o amor excessivo: da avareza e do esbanjamento (canto XIX), da gula (canto XXII) e da luxúria (canto XXV). Dentre os avarentos, o poeta Estácio junta‑se aos peregrinos em sua ascensão (canto XXI), explicando sua conversão ao Cristianismo e discorrendo sobre a infusão da alma no corpo. No terraço dos lascivos, apresentam‑se‑lhes os poetas Guido Guinizelli e Arnaut Daniel (canto XXVI). Este último lhe fala em provençal:

139 E sua voz se fez, então, ouvir:
“Tan m’abellis vostre cortes deman
qu’ieu no me puesc ni voill a vos cobrire.

142 Ieu sui Arnault, que plor e vau cantan:
consiros vei la passada folor
e vei jausen lo jorn qu’esper, denan.

145 Ara us prec, per aquella valor
que vos condus al som de l’escalina
sovenha vos a temps de ma dolor!


“Tanto me penhoraste, me saudando,
que não posso, nem quero, me encobrir.

Sou Arnaldo, que choro e vou cantando:
Medito no passado e torpe ardor,
a salvação futura prelibando.

E ora te exorto, pelo grão valor
que te conduz ao cimo da escalada,
que te recordes lá de minha dor!”


No último patamar, Dante se despede de Virgílio e segue acompanhado por um anjo que o leva através de um muro fogo que separa o purgatório do paraíso terrestre ou Jardim do Éden, no topo da montanha (canto XXVII).
Finalmente, às margens do Letes, Dante reencontra Beatriz. O canto XXX do Purgatorio só se entende à luz de Vita nuova, mas percebe‑se o recrudescimento de sua velha paixão na nova emoção de ter de renunciar a Beatriz no além‑túmulo. São os cantos de maior intensidade pessoal. Beatriz é essencial ao conjunto, mas é só aqui que ela aparece também mais claramente. Depois de purificar‑se nas águas do rio Letes, Dante prossegue sua viagem, rumo às estrelas.
Purgatorio, XXXII
1 Eu tinha tanto o olhar nela embebido,
saciando, absorto, a decenária sede,
que me alheei de todo outro sentido.

4 — como se a cada lado uma parede
houvesse ali: de seu sorriso o encanto
outra vez me prendia à antiga rede!

O paraíso
Purgatorio é mais difícil por ser transicional; o Paradiso é mais difícil enquanto conjunto. Aquele pode parecer seco; este, incompreensível ou excitante. Com exceção de Cacciaguida — perdoável exibição de orgulho pessoal —, não há outros episódios no Paradiso. É preciso ajustar a visão para acompanhar a engenhosa variação de caracteres — com as melhores credenciais — que são inusitadamente trabalhados como material poético. E pensamos que nossas canções mais doces são as que falam de tristes pensamentos…
A dificuldade do Paradiso procede de Dante, não do leitor, pois ele procura educar o sentimento deste através de raciocínios que façam alcançar os estados sentimentais. Por exemplo, a longa oração de Beatriz acerca da vontade (canto IV). Deve‑se procurar sentir o que está dito, em vez de considerá‑lo palavrório decorativo.
Do mesmo modo, antes de considerar as imagens, pequenas e grandes (a águia no canto XVIII), como recursos retóricos antiquados, é preciso entender sua estrita utilidade para tornar visível o que é espiritual. Compreender essas imagens prepara para o último canto. “Em parte alguma, na poesia, experiência tão incomum foi expressa de modo tão concreto, pelo emprego magistral daquelas imagens de luz, que vêm a ser a forma de alguns tipos de experiência mística”.
A viagem inicia‑se no paraíso terrestre, quando Beatriz olha fixamente para o sol e Dante a acompanha até que ambos começam a elevar-se. Passam pelos vários céus e encontram personagens como São Tomás de Aquino e o imperador Justiniano. O paraíso de Dante divide‑se em duas partes: uma material e outra espiritual, ou empíreo. A parte material segue o modelo cosmológico de Ptolomeu e consiste de nove círculos ou esferas formados pelos sete planetas (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno), pelo céu de estrelas fixas e pelo Primum Mobile (que transmite o influxo de seu movimento a todas as esferas inferiores). Cada uma dessas esferas é regida por um dos nove coros angélicos.
O céu da Lua compete aos justificados que quebraram seus votos; o de Mercúrio, aos que faltaram retidão em vida, o de Vênus, aos que foram lascivos; o do Sol, aos teólogos. No céu de Marte (canto XVII), próprio dos mártires, Dante encontra seu trisavô Cacciaguida, morto numa cruzada, o qual lhe explica as profecias ouvidas no inferno e no purgatório quanto ao seu exílio e atribulações que deste lhe adviriam. Por fim, na esfera de Júpiter encontra os reis e na de Saturno as almas contemplativas.
Chegando ao céu de estrelas fixas, Dante é interrogado pelos santos sobre suas posições filosóficas e religiosas. Depois do interrogatório, recebe permissão para prosseguir. No Primum Mobile, Dante passa a compreender o mundo espiritual, onde encontra os nove coros angélicos, concêntricos, que giram em volta de Deus. Lá, ao receber a visão da Rosa Mística composta pela Comunhão de todos os Santos, separa‑se de Beatriz e tem a oportunidade de sentir o amor divino que emana diretamente de Deus, graças à intercessão de São Bernardo e Maria Santíssima.
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