13 de set de 2009

Arquitetura como realidade histórica


Efetivamente, a função de um edifício é uma qualidade decorrente de sua realidade formal, e não o contrário. A forma é fruto da realidade histórica, de sua inserção no tempo e do conhecimento da arquitetura já existente.

Para projetar faz‑se portanto necessário estar ao dia com a técnica e a cultura e ter um conhecimento do que já se fez.
Por fim, a arquitetura se define também por sua fixação na realidade territorial e urbana, o que a distingue das demais artes e técnicas.

A Arquitetura, bela‑arte
Desde o século XIX a arquitetura distinguiu‑se da simples construção na taxonomia das artes: as que têm por finalidade principal criar a beleza e comunicar emoções estéticas são as belas-artes. Deste modo, um edifício de caráter unicamente funcional estaria fora do conceito de arquitetura. Entretanto, de acordo com o viés pelo qual se encara a obra de arte, a sua finalidade varia demasiadamente: talvez nem o próprio arquiteto tenha sabido a sua causa maior ao concebê‑la, ainda mais quando entram em jogo os interesses pessoais, do cliente, os prazos etc.
De qualquer forma, desde o Renascimento, algumas artes tiveram um interesse cada vez maior no seu objetivo estético, até ao ponto extremo do narcisismo artístico das exposições. E a arquitetura? Permaneceu sujeita a uma utilidade prática como ponto de partida da criação estética — exceção feita aos monólitos e arcos do triunfo —, embora sem a criação estética não exista arquitetura, mas apenas construção. A criação do espaço é essencial na arquitetura, mas não esgota o seu fim.

O Esteticismo e a busca de uma nova Arquitetura
Uma primeira solução do dilema foi pois alcançar os dois objetivos em separado. O que é impossível quando se comprova que além da expressividade propriamente arquitetônica (que afeta o uso do edifício), a arquitetura também comporta a escultórica (que afeta sobretudo os sistemas construtivos) e a pictórica. Da falta de integração desses meios adveio a dicotomia entre trabalho técnico e artístico, com a macilenta maquiagem das construções.

É paradoxal que a arquitetura moderna tenha tendido à simplicidade e à estrita espacialidade se o meio expressivo pictórico é o que menos conflita com a construção: o ornamento não é mau por ser abundante; pode ficar ruim de acordo com a perícia e o investimento dos artistas e clientes. A sociedade industrial ansiou por uma nova arquitetura entre outros fatores por estar farta da exuberante ornamentação gótica e grega — inspirada nos descobrimentos arqueológicos feitos na segunda metade do século XVIII — que se fazia às pressas e com o menor número de artistas. Com efeito, esses meios de expressão somente terão valor se se conjugam bem os seguintes fatores: importância social do edifício, número e competência dos artistas da construção e abundância e grau de complexidade dos ornatos.

O Funcionalismo
A cultura japonesa revolucionou as artes decorativas no século XIX, permitindo que, primeiro na Inglaterra — através do Aesthetic Mouvement — e assim por toda a Europa, surgissem novos estilos: o Art Nouveau, o Modernismo etc. Alguns arquitetos tentaram criar uma nova decoração, tarefa sobre‑humana para um só artista, ideal que uns poucos alcançaram, como Gaudí e Sullivan, mas que, fracassando na maioria dos edifícios importantes do século XIX, levou à supressão do ornamento.

No final do século XVIII, Ledoux, Boullé e outros arquitetos franceses já tinham tentado criar uma arquitetura mais sóbria, porém não obtiveram frutos numa época tão romântica. Já o final do século XIX pôde ver ressurgir Chicago das cinzas com um padrão moderno de construção, conseqüência da cultura de então (urgência na reconstrução da cidade, evoluções técnicas, especulação, empreendimentos abundantes etc.), mas que esbarrou na tendência ornamental comum nas residências e casas de cultura.

A supressão da decoração ocorreu na Europa, perto de 1910, como «evolução necessária da criação artística», «libertação de práticas assessórias e acidentais». Isto na arquitetura, pois as artes decorativas seguiram seu caminho independentemente, nos objetos usuais de uso popular.
Outro paradoxo: a arquitetura só evoluiria «liberta da estética», associada comumente às suas secundárias formas de expressão.

A própria construção, como materialidade da função, seria a «forma», aquilo capaz de ser percebido esteticamente. Le Corbusier, a Bauhaus e os neoplasticistas chegaram deste modo a uma unidade característica em suas obras. Contudo, a uniformização e a eleição de uma tipologia fixa contrariam o fim estético, antes exaltam uma necessária ênfase do arquiteto nos fins práticos da obra, como peça de fábrica, máquina que em si mesma encerra beleza.

Longe de chegar a um denominador comum, a arquitetura funcional levou a um individualismo, visto que a forma‑tipo depende de duas orientações, múltiplas e díspares: o programa geral e as convenções sociais com a intuição estética do arquiteto.

O idealismo das teorias
Mies van der Rohe considerava que a beleza é conseqüência do uso de um tipo construtivo verdadeiro. Isso leva ao raciocínio contrário: numa gama de possibilidades, a construção verdadeira será a mais bela.

Ora, o esteticismo (arquitetura = utilidade + solidez + beleza) e o funcionalismo (arquitetura = bela construção) são teses idealistas, nas quais os arquitetos podem inspirar seus projetos, mas nunca lhes servirão para encontrar as formas necessárias. É um erro achar que a forma é oriunda de um objetivo fora da arquitetura.

Todo esse idealismo levou à exaltação da estética, porém mais perigosamente do que no século XIX. Se antes o projeto se dividia em trabalho técnico e depois artístico, levando à macilenta maquiagem das edificações, no século XX o projeto tornou‑se cada vez mais desafiador, contrarrastando os estorvos econômicos, práticos e mesmo funcionais.

Outra tese errônea daí advinda foi a ênfase numa arquitetura «autenticamente tecnológica», que se reduz a ser «solução» de um «problema»: as exigências projetuais não são problemas, assim como o edifício construído não é solução, porquanto a forma não surge dos dados propostos, os quais quando muito proíbem algumas formas possíveis.

A arquitetura só é solução de problemas econômicos e estéticos (em termos mais gerais). Essas duas preocupações, tão em voga no século XX, foram mais determinantes para a forma do que para a função. E apesar de por vezes se terem antagonizados, o gosto soube preferir formas mais simples — mais econômicas — em certos períodos.

O Triângulo de Vitrúvio
Conclui‑se que não se podem alcançar em separado os fins construtivo e estético. Mas a busca do Triângulo de Vitrúvio cai no vazio da pergunta: como relacionar os três objetivos?
Efetivamente, não há sistema algum.

Geoffrey Scott, indo por essa vertente, queria distinguir os três propósitos arquitetônicos como esferas em si mesmas razoáveis de um julgamento ponderado das obras edificadas. Mas isso não se mantém: cada aspecto, separado dos demais, torna‑se inconsistente. O Renascimento, por exemplo, propunha uma lógica construtiva virtual («trompe l’œil», entre outros) que por motivos estéticos não mostrava os detalhes da função construtiva de cada parte do edifício.

O gosto, segundo Scott, é o juiz da expressão estética da arquitetura como uma das belas‑artes. Ora, o gosto não existe só; antes é conseqüência da mesma experiência arquitetônica.

Em suma, a intenção de responder ao «problema» da arquitetura só resultou no fracasso de todas as suas teorias. A arquitetura não responde a necessidades sociais, mas é produto da realidade histórica de seu tempo. Faz arquitetura o cliente, o projetista, o construtor, toda a sociedade, pois o desenvolvimento da forma arquitetônica e das atividades humanas que nela ocorrem é um mesmo e único processo. Com efeito, por que são tão diferentes as casas orientais das ocidentais senão pela tradição diferenciada desses povos?
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