22 de jul de 2009

Debate em torno a Tales de Mileto

Para ilustrar a postagem anterior, apresento o livro-debate que fiz sobre a parca doxografia existente de Tales de Mileto (vide, por exemplo, na coleção Os Pensadores):

APRESENTAÇÃO:

Tales foi o fundador do pensamento filosófico no Ocidente ao ter buscado o arqué: «aquilo de que todos os entes são constituídos e de que primeiro são gerados e em que por fim se dissolvem» ou «princípio de movimento». Com Hipão, afirmava ser a água (ilimitada), indo de encontro às explicações mitológicas da época que punham-na entre os entes mais antigos (teologia). Ora, um único princípio supera a percepção sensível do particular e aponta para o universal, do qual procede toda a realidade (isto é filosofia). O erro foi não ver a água como também coisa singular (domínio da ciência).

QUESTIONÁRIO:



  • Qual é, segundo Tales de Mileto, o arqué, seu efeito no mundo e suas características?
  • Exatamente onde errou, Tales de Mileto iniciou a filosofia (cosmologia). Qual o seu erro e o seu acerto na caracterização do seu princípio?
  • Enquanto físico, qual a relação aduzida por Tales entre sensação (percepção) e realidade?
  • A água «é» alma ou «tem» alma?
  • Como se harmoniza a tese de Tales com a religião de seu tempo? Pode‑se falar de uma teologia subjacente ao seu pensamento?

  • DOXOGRAFIA:

    1. Aristotóles, Metafísica, I, 3. 983 b 6 (DK 11 A 12). A maior parte dos primeiros que filosofaram considerava que os únicos princípios de todas as coisas são materiais. Aquilo de que todos os entes são feitos, de que no princípio foram gerados e em que, enfim, se dissolvem, embora permaneça a essência e mudem apenas as exterioridades, tal é, para eles, o elemento [στοιχεῖον], tal é o princípio [ἀρχή] dos entes. E por isso pensam que nada se gera nem destroi, como se tal natureza subsistisse sempre…

    Pois deve haver uma natureza qualquer, ou mais do que uma, da qual as outras coisas se originam, salvaguardando a primeira. Quanto ao número e à forma destes princípios, nem todos dizem o mesmo. Tales, o criador de tal filosofia, afirma ser a água. Por isso ele também afirmou que a terra está fundada sobre a água. Sem dúvida, foi levado a esta concepção por ver que o alimento de todas as coisas é úmido e que o próprio quente dele procede e dele vive. Ora, aquilo do que se procede, é o princípio de todas as coisas. E então, por isso, adotou ele esta concepção, também porque a semente de todas as coisas terem a natureza úmida. E a água é o princípio da natureza para as coisas úmidas.

    E há alguns que pensam que também os mais antigos, bem anteriores à nossa geração, e os primeiros a fazer teologia, teriam a respeito da natureza formado a mesma concepção. Pois colocam Oceano e Tétis como pais da geração e, como o juramento dos deuses, a água, chamada pelos poetas de Estige. Pois o mais venerável é o mais antigo; ora, o juramento é o mais venerável.


    2. Simplício, Física, 23, 21 (DK 11 A 13).

    Alguns dos que afirmam um só princípio de movimento — aos quais [Aristóteles] chama “físicos” — consideram que ele é limitado.

    Assim, Tales, filho de Examias milésio, e Hipão, que parece ter sido ateu, afirmavam que a água é o princípio, tendo sido levado a isto pelos fenômenos e sensações.

    Pois o quente vive com o úmido, as coisas mortas ressecam-se, as sementes de todas as coisas são úmidas e todo alimento é suculento. Donde procede cada coisa, de lá naturalmente se alimenta. A água é o princípio da natureza úmida e tudo contém. Por isso supuseram que a água é o princípio de tudo e afirmaram que a terra jaz sobre ela.

    Os que supõem um só elemento afirmam-no ilimitado em extensão, como Tales diz da água.


    3. Aristóteles, Da Alma, 5, 411 a 7 (DK 11 A 22).

    E afirmam alguns que ela [a alma] está misturada com o todo, razão pela qual talvez Tales também pensou que as coisas estão cheias de deuses. Parece também que Tales, pelo que se conta, supôs que a alma é algo que se move, se de fato disse que o ímã tem alma porque move o ferro.

    Foi Tales quem primeiro esclareceu que a alma é uma natureza sempre em movimento ou que se move a si mesma.

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