22 de fev de 2010

A primeira redescoberta do valor do trabalho

Valor da vida corrente
Os responsáveis pela primeira redescoberta do valor do trabalho foram os protestantes.

A apologética católica desconsiderou o resgate protestante da vida ordinária, sem dúvida porque fora efetuado desprezando o sacerdócio ministerial, a fim de evidenciar o sacerdócio comum dos fiéis, tão apagado durante a Idade Média.

Desde sua ética individualista, tanto Lutero quanto os puritanos calvinistas viam nos próprios deveres intramundanos uma “chamada” de Deus. Mas estes, seguidos pelos pietistas e metodistas, trouxeram uma ulterior novidade: a convicção de que o amor santifica a vida corrente.

O ponto débil dessa interpretação radica na forma unilateral com que o protestantismo rechaça o celibato, o sacerdócio e o monacato para defender a mundanidade da existência humana. Com efeito, é contraditório ou paradoxal afirmar a mundanidade e defender ao mesmo tempo a tese luterana de que o homem e o mundo estão radicalmente corrompidos. Numa perspectiva protestante, nem o trabalho como “vocação” nem sua “santificação” podem entranhar salvação.

Por isso, o luteranismo tendeu ao providencialismo (aceitação passiva das circunstâncias ditadas pela vontade de Deus). O calvinismo, por sua vez, tendeu à adoção de instrumentos de coação e domínio (dinâmica revolucionária para encobrir a corrupção do mundo mediante o esforço humano).

Nesse sentido, Max Weber fala de uma “ascese intramundana” protestante, que gerou uma moral do esforço e do êxito. Também há aqui se faz patente outra contradição: segundo a tese luterana original, a justiça não pode vir pelas obras.

Portanto, a inclinação protestante ao mundo e à vida ordinária não corresponde a uma autêntica afirmação do mundo. Trata-se, em certo sentido, de uma forma secularizada do ideal ascético monástico.

Mundanismo e consciência religiosa
O ideal utilitarista da diligência (o “time is money” de Benjamin Franklin) não possibilita nem teologia, nem espiritualidade. Mas se disseminou em todo o Ocidente. Eis a causa da concorrência moderna entre mundanidade e consciência religiosa.

No campo católico, muito se acusou o ora et labora beneditino de ser uma instrumentalização do trabalho para fins ascéticos, como mero combate ao ócio monacal. Contudo, embora o trabalho do religioso não lhe advenha de fato do seu interesse pelo mundo, também é pautado por uma preocupação positiva, coerente com sua vocação e missão: buscar energia espiritual para o mundo.

O opus Dei (trabalho de Deus) pregado por São Josemaria Escrivá no século XX trouxe ênfase distinta e demarcou diferenças básicas e essenciais. A meta da santificação do trabalho, em vez de ser a salvação pelo próprio trabalho (como no protestantismo), é proposta aos católicos leigos como abertura à graça divina e à atuação de Deus no trabalho ordinário, através do qual Cristo atrai a si todas as coisas.
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