18 de jan de 2010

Os opostos se distraem, os dispostos se atraem


I.
Amar sem possuir não é amor platônico.

Se a consistência da realidade consiste em seu aspecto inteligível, apenas a ideia amada seria digna de amor, e não sua caduca materialidade.

Isso não é amor, é dissecação; é como ser fiel ao defunto.

Filosofias à parte, quem foi o maldito demiúrgo que recobriu de barro nosso coração? Coração enlameado é como olho vendado.

II.
Que há de mais oposto que céu e terra, água e fogo, ferro e madeira?

Contudo, que há mais bela do que a distraída fusão azul entre mar e firmamento? Do que a iriada junção entre sol e chuva? E que há mais pungente que a lágrima da seiva sob o grito do machado?

Dispor asas para voo ascensional. Arrancar o barro. Não só barruntar, mas ver, contemplar, conhecer, devorar. Ímã de altitude, arroubamento ineludível, voo místico, êxtase superior.

III.
Amar sem possuir é atitude escatológica.

Renunciar à posse é amar o amor e não o amado.

Oposição? Disposição? — Solidão.

Os solitários se acompanham, se observam, se policiam. Estão cercados de multidão, mas continuam sós. Mesmo que dissessem muito, não comunicariam tudo. Há algo impossível de partilhar.

Caminhos paralelos, direções divergentes, círculos que se tangenciam, mas não se cruzam.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...