13 de nov de 2009

Gêngis Khan: herdeiro de Kabul e Iasugai


A Bandeira do Falcão
As tribos nômades percorriam a Mongólia Exterior, região limitada por intransponíveis montanhas e pelo terrível deserto de Gobi. As tribos eram constituídas por vários clãs e estes, por famílias. Estratificavam‑se em aristocracia hereditária dirigente, guerreiros, pastores e escravos.


No século XII, existia ao sul uma confederação tribal liderada pelos keraítas e, a oeste desta, viviam os turcos, com capital, escrita, cultura, esquema administrativo baseado no chinês e monopólio comercial com o ocidente. O território do pequeno povo mongol ficava a leste, entre os caçadores merkitas das florestas próximas ao lago Baikal – considerados selvagens pelos próprios pastores nômades –, e os tártaros do extremo oriente, junto à fronteira manchu. Suas montanhas eram consideradas sagradas por todas as tribos.


Entre os mongóis, havia o ramo niroune, dos “filhos da luz”, com tez clara dourada e olhos menos fendidos, que se pensava de origem divina. Segundo a lenda, um guerreiro valoroso, retornando ao acampamento após dois anos de ausência, teria encontrado grávida sua mulher. Interrogada, ela teria afirmado: “Uma noite, quanto eu estava na tenda sem conseguir dormir, um raio de luz penetrou pela abertura superior e tomou a forma de um jovem de cabelos louros e olhos azuis, que tocou por várias vezes em meu seio. É dele o filho que trago no ventre”.


Um grande chefe é escolhido por uma barba puxada
O falcão era o gênio tutelar do clã dos borgigin da tribo niroune kiyata. O chefe da mais nobre família kiyata‑borgigin foi Kabul, um líder que conseguiu unir várias tribos sob sua direção, ao vencer os tártaros e os manchus, a soldo dos kin, conquistadores do norte da China.


Sua ousadia era memorável por ter puxado a barba do imperador enquanto estava completamente embriagado comemorando uma vitória. Contudo, Kabul passou em 1135 a servir a dinastia nacional chinesa contra seus usurpadores kin, derrotando seus antigos aliados a cabo de quatro anos.


Seu sobrinho‑neto, Iasugai o Valente, foi por sua vez um valoroso guerreiro e hábil diplomata, reunindo 20.000 homens sob a bandeira do falcão e estabelecendo uma aliança de sangue com o senhor de Gobi, Togril cã (príncipe) dos keraítas, pela qual uniu para sempre as duas confederações.


Entre as Montanhas Sagradas nasce Temugin
O primogênito de Iasugai, nascido nas montanhas sagradas, recebeu o nome de um inimigo vencido, Temugin. O aprendizado do príncipe, porém, foi conforme a dura lei da estepe: teve de disputar, como todas as demais crianças, o resto de comida com os cães, recolher o esterco que serviria de combustível, caçar pequenos animais para alimentação, pescar e limpar os cavalos.


Aos seus nove anos, Iasugai encontrou‑lhe a noiva Borte, de dez anos, filha do chefe da poderosa tribo aliada konguirat. Seguindo a tradição, permaneceu com seus futuros parentes, entre os quais escutou as narrativas dos mercadores chineses, vendedores de seda e compradores de peles.


Nove cavalos e dois carneiros
Iasugai, porém, foi envenenado num banquete oferecido por uma tribo tártara em 1175. Por causa da prematura morte do pai, Temugin tornou‑se o novo líder das tribos confederadas, quando tinha apenas 13 anos.


Mas os guerreiros de Iasugai preferiram submeter‑se ao clã dos taitchutas, que também descendiam de Kabul. Assim, ao receber o chicote de mando e o estandarte do falcão, sentado sobre a branca pele real, Temugin tinha à sua volta apenas algumas mulheres e crianças. O chefe dos taitchutas, prevendo que o filho de Iasugai quereria ser o senhor da horda, atacou o pequeno acampamento e Temugin precisou refugiar‑se com a família, nove cavalos e dois carneiros no inacessível monte Burkan Kal. A partir de então, passou a ser um proscrito perseguido.


Certo dia, os taitchutas roubaram‑lhe oito dos nove cavalos. Montado no derradeiro, seguiu a pista dos assaltantes e conheceu no caminho um jovem, também filho de um chefe, o qual o ajudou a recuperar seus animais. Por isso tornaram‑se amigos e estabeleceram uma aliança perpétua entre seus clãs.


E Herdeiro da coragem de Iasugai e da ousadia de Kabul, Temugin fez fama de indomável. Os jovens dos outros clãs passaram a procurá‑lo no seu pequeno acampamento da montanha. com alguns recursos para atacar em rápidas surtidas os taitchutas, vai poupando a vida dos que se unem a ele.


Aos dezessete anos, Temugin resolve reclamar Borte, sua noiva, e é recebido em festa no acampamento konguirat. Como dote, recebe um belíssimo manto de zibelina preta, que vale mais do que todas as propriedades do seu clã. A esposa traz consigo muitas tendas, servos e escravos, fazendo aumentar seu acampamento. O manto serviria para Temugin presentear Togril Khan e reafirmar o pacto de Iasugai com os keraítas.


Um dia, quando Temugin saíra para uma caçada, os merkitas atacaram e queimaram as tendas, raptando as mulheres, entre as quais estava Borte. Com o auxílio de Togril e de outras tribos aliadas, Temugin bateu os merkitas e recuperou sua esposa alguns meses depois. Contudo, ela estava grávida, e no caminho de regresso deu à luz nas estepes nuas a Gutsci, “o inesperado”, que Temugin aceitou como legítimo herdeiro, apesar de não ter certeza se o filho de Borte era seu filho.


Repartindo as presas conquistadas, Temugin procurou atrair a simpatia dos chefes das tribos mais poderosas, preparando as futuras alianças para reconstruir o edifício político que seu pai erigira.
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