25 de mai de 2007

Como foram os dias da visita do Papa ao Brasil em 2007

Aqueles dias foram inesquecíveis!

Desde segunda-feira, 7 de maio, já estavam em São Paulo alguns grupos de estrangeiros latino-americanos.
Tínhamos reservado para eles alojamentos e preparado alguns voluntários para guiá-los em passeios pela cidade. Na quarta, que foi o dia que o Papa chegou, a coisa pegou fogo. Depois de levar 60 argentinos pelas ruas do Centro de São Paulo, mostrando-lhes o Teatro Municipal, a Sé, o marco zero, a casa número 1, a casa da Marquesa de Santos, o Pátio do Colégio e o impostômetro, tudo sob gritos de "Pelé!" (da parte dos brasileiros nos bares) e de "Argentina! Maradona!" (da parte do grupo de 60 argentinos), chegamos ao Mosteiro de São Bento, que já estava quase cheio, com umas 5.000 pessoas, às 15h. Dei-lhes a comer carambola, que eles nunca tinham visto. Levei-os a um restaurante, deixando assustados os demais comensais. O menorzinho dos argentinos, um garoto, derrubou o prato no chão e as cozinheiras ficaram cheias de pena e de xodó, dando-lhe uma nova refeição, sem cobrar.

Às 18h o Papa chegou: 10.000 pessoas espremidas na exígua praça defronte do Mosteiro berravam até que Bento XVI subiu aos seus aposentos e deu a sua primeira bênção desde a sacada. Na praça era uma festa: a multidão de adolescentes chilenas cantavam o seu famoso grito de guerra: "Ce-ache-i... Chi! Ele-e... le! Chi-chi-chi! Le-le-le! Viva Chile!" E o argentino ao lado me lembrava todas as derrotas de times brasileiros para equipes do país de Maradona.

Para de noite, eu tinha organizado uma tertúlia de mais de 200 pessoas com um Cardeal. Foi espetacular, pois ele foi jogador da seleção peruana de basquete, é uma pessoa muito inteligente e descortinou muitos horizontes a respeito da recristianização da sociedade e da manipulação operada pelos meios de comunicação. Tudo explicado com mil exemplos, pois ele vai à TV toda a semana e tinha acabado de ter uma coletiva com repórteres brasileiros na véspera.

Na quinta, depois dos passeios matinais, tivemos o encontro com o Papa no Estádio do Pacaembu. Depois desse primeiro contato com o Papa, a cidade já estava em festa. Aqueles que, mal influenciados pelos meios de comunicação, achavam que o Papa Ratzinger era um "cara mau", já estavam eletrizados por ele.

E assim, no dia seguinte, ele presidiu a concelebração da Missa de Canonização de Frei Galvão, o primeiro santo brasileiro. Na homilia, o Papa falou de Confissão, castidade e santidade. Já tinha falado de castidade na véspera e, em todas essas vezes, foi muito ovacionado. Durante a tarde do dia 11, sexta-feira, o Papa teria um encontro privado com os Bispos do Brasil. Então lá fomos nós para um show que tínhamos preparado para os estrangeiros no Centro Educacional e Assistencial de Pedreira.

Fizemos uma apresentação de músicas internacionais para mais de 600 pessoas, em que participaram, além dos brasileiros lá presentes, uruguaios (17), paraguaios (10), argentinos (150), chilenos (130) e equatorianos (80). No fim, D. Rafael Llano, Bispo de Friburgo, pregou uma meditação para todo esse pessoal, metade em português e metade em castelhano. Ele gritava aos brados que vale a pena ser fiel à própria vocação, que cada um de nós é a Igreja, que devemos transformar a sociedade com a nossa fé bem vivida, que o apóstolo deve vogar para águas mais profundas em vez de ficar "pescando num aquário", que muitos que deveriam ser "pescadores com cheiro de mar e coração jovem" infelizmente são "peixeiros com cheiro de água podre e coração de velho".

O fato é que, quando acabou tudo, o pessoal foi ao delírio: já tinham visto o Papa, estavam conhecendo o Brasil, tinham assistido a um show espetacular e ainda por cima assistiram a uma meditação tão eletrizante e desafiadora... Quase sufocaram D. Rafael tentando agarrá-lo e depois voltaram gritando no ônibus: "Vale la pena, vale la pena!"

No sábado todos viajamos a Aparecida, pois à tarde rezaríamos o terço com o Papa na Basílica Nacional, que por sinal estava linda. Esse foi o ponto alto, por assim dizer. Só 35.000 pessoas cabiam lá dentro. Chegamos cedo na fila. Lá dentro, muita intimidade. O discurso do Papa durou 35 minutos e foi interrompido por nossos aplausos 31 vezes. Dava para ouvir de dentro o povo aplaudindo fora, o que fez até o Papa achar engraçado. Ele estava visivelmente emocionado. Parece que ele descobriu no Brasil uma coisa que a Europa perdeu: a fé simples, o carinho pelo sucessor de Pedro, pelo Vice-Cristo na Terra.

Sem dúvida, o Papa não deixou de ser claro diversas vezes: no Brasil é urgente uma catequese capilar que forme os católicos, para que a sua fé não seja superficial, sentimental, ingênua, despreparada. Só entusiasmo não é suficiente, embora ajude bastante. Deu para notar que ele percebeu isso. O Papa insistiu em que as pessoas tenham uma vida moral coerente (respeito pela vida nascente, castidade no namoro, pela instituição do matrimônio, honestidade) e uma vida sacramental intensa (Comunhão e Confissão frequentes). Sem isso não se pode ser cristão.

À noite, fomos dormir no chão da esplanada, diante da Basílica de Aparecida. A noite na esplanada foi um show. Durante toda a madrugada os grupos mais diversos, vindos de todo Brasil e América Latina se encontravam, cantavam, dançavam. Houve um momento que parecia que ia dar briga: uma roda de brasileiros se aproximou a uma de argentinos... e ambas se juntaram... e com outras... e com outras... De repente virou uma espécie de bloco carnavalesco! Todos ao som dos pandeiros, bumbos, cornetas, iam marchando e se abraçando. O número de jovens era muito elevado. Também houve confusão, sem dúvida, pois muitos queriam estar o mais perto possível do altar enquanto outros já ocupavam os melhores lugares deitados em sacos-de-dormir.

Ao amanhecer, tivemos a Missa de abertura do CELAM (reunião dos Bispos latino-americanos). Pude ver o Papa a dois metros, no papamóvel, com a janela abaixada, duas vezes. Da segunda ele olhou para mim e me abençoou, pois tive a sorte de me encontrar sozinho numa rua alternativa pela que a os seguranças conduziram o papamóvel de surpresa.

E então foi a hora de voltar para casa. Todos exaustos, os estrangeiros com uma viagem enorme pela frente. Ainda que uns portenhos tenham ido para o Guarujá e os de Guayaquil para o Rio...
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