7 de dez de 2009

Gêngis Khan: Imperador Oceânico


A travessia do deserto de Gobi
Gengis Khan estabelecera acordos secretos com as tribos defensoras da Grande Muralha, da Mongólia Interior chinesa. Com habilidade diplomática, conquistou o noroeste da China em 1209, até então dominada pelos tangout, a título de zeloso vassalo do imperador kin. Contudo, obrigou‑os a se comprometerem a auxiliá‑lo a um futuro ataque contra a China. Com efeito, em 1211, sob a perspectiva de pilhagens colossais, Gengis Khan partiu à frente de 200.000 guerreiros pelo deserto de Gobi, rumo às riquezas dos kin.

Cada homem levava dois odres cheios de leite de égua fermentado e uma tenda individual. Alguns rebanhos seguiam o exército, para garantir alimento. Foram anos de guerras e saques, em que quatro exércitos chineses foram destruídos, os campos e as colheitas arrasados. As catapultas, lançadores de lanças inflamadas e bombardas apenas diminuíram a mobilidade das tropas chinesas frente aos hábeis cavaleiros das estepes. Nos ataques às cidades fortificadas, estes usavam de terror, pondo a população local diante de seus homens, como anteparo para as flechas dos defensores.

O imperador sitiado em Pequim acabou por se dobrar, entregando todo o tesouro imperial e uma filha como esposa a Gengis Khan. Antes de retornar às suas pastagens, os mongóis decapitaram todos os milhares de prisioneiros, que certamente não conseguiriam realizar a travessia do deserto de Gobi.

Mas a imediata mudança da capital imperial de Pequim para Pien foi interpretada como um rompimento do tratado de paz. Gengis Khan retornou com sua cavalaria à China, destruiu Pequim completamente no verão de 1215. Os poetas chineses da época cantavam: E “Nem um gorjeio de pássaros fora dos muros silenciosos. Os fossos estão repletos de sangue gelado e de cadáveres de barba endurecida. A corda de todos os arcos rompeu‑se, todas as flechas jazem caídas”. Permaneceu ainda um ano e partiu deixando 23.000 soldados para terminar definitivamente a conquista. A campanha também foi útil para que os generais de Gengis Khan aprendessem os meios técnicos de guerra chineses.

A longa travessia entre neves eternas
Gebe tomou em 1218 o reino nômade dos karakitai, pelo que Gengis Khan passou a ter por vizinho o poderoso conquistador Mohamed de Kharesm, cujos domínios se estendiam da fronteira hindu e do golfo Pérsico até o mar Negro e o mar Cáspio, da Arábia até o lago de Aral. Além de que o soberano persa também conquistara parte do reino karakitai, tanto ele como Gengis Khan repartiam as importantíssimas rotas de comércio com o Ocidente.

Quando os persas atacaram uma caravana diplomática e comercial, saqueando‑a e deixando os embaixadores mortos, Gengis enviou sua última mensagem: “Tu escolheste a guerra. Apenas o céu conhece o resultado da luta”. Reuniu 200.000 soldados, divididos em três grupos, dois da vanguarda liderados por seu filho Gutsci e o grande general Subotai, e o da retaguarda por ele mesmo e seu fiel Gebe.

Percorreram 2.000 quilômetros entre montanhas inacessíveis e desfiladeiros perigosíssimos, a mais de 3.000 metros de altitude, para atacar adversários mais numerosos e melhor equipados. Chegaram meio mortos de fome e cansaço e a vanguarda foi rechaçada pelo exército persa, que os esperava. Como a ameaça parecia afastada com a retirada do inimigo, passaram a comemorar a vitória, mas foram surpreendidos pelo outro lado pelo destacamento da retaguarda. Colocados entre dois fogos, os persas resistiram apenas para adiar o fim previsto. As guarnições da fronteira caíram uma a uma, Samarcanda foi incendiada com o emprego de catapultas e o foi perseguido peloscães de ferro” Subotai e Gebe até morrer doente e alquebrado numa ilha do mar Cáspio no inverno de 1220.

Gebe e Subotai receberam então a missão de “submeter ao domínio de Gengis Khan todos os países outrora dominados pelos hunos e pelos turcos”, partindo rumo ao Ocidente com 20.000 homens. Enquanto isso, o teve de enfrentar seu mais difícil adversário, o príncipe herdeiro Gelal ad‑Din Mangubertu, que, refugiado no Afeganistão, preparava uma “guerra santa” de resistência aos invasores.

Um chamado à oração custa a cabeça
Com a destruição de guarnições e o assassinato de governadores mongóis, Gengis Khan reconheceu que uma ação imediata poderia restabelecer seu domínio e ordenou o massacre total da população das cidades revoltosas. Disposto a atingir seus objetivos até o fim, determinava assim o preço da revolta: todo o país deve se tornar estepe, único fundamento seguro de dominação. Os mongóis vestidos de mulá (personalidade religiosa xiita, doutor da lei corânica) chamavam os fiéis à prece e os que acorriam eram decapitados. Os cronistas persas afirmam que apenas um décimo da população conseguiu sobreviver à onda de destruição que arrasou um importante centro de civilização medieval.

Gelal, porém, continuava a lutar com suas tropas fiéis, chegando a matar trinta mil mongóis. Mas foi finalmente cercado às margens do Indo e, atacado por três lados, resistiu o quanto pôde. Ao ver‑se perdido, saltou a cavalo de uma altura de oito metros e alcançou a outra margem do rio. Gengis Khan impediu sua perseguição imediata em louvor à sua coragem, dizendo a seus filhos: “vocês deveriam ter sucessores iguais e este homem”. No dia seguinte, uma parte do exército entrou na Índia em busca do fugitivo. Após o saque de algumas cidades, o calor intenso e as doenças fizeram‑nos regressar.

O saldo de quatro anos de campanha foram milhões de muçulmanos mortos e um império que se estendia da China ao golfo Pérsico, dos desertos siberianos às florestas indianas.

Paralelamente, de 1221 a 1223, a horda mongol liderada por Gebe e Subotai atravessou o continente asiático num percurso de 6.000 quilômetros, dominando os principados da Geórgia, atravessando o Cáucaso, atingindo as vastas estepes da Rússia meridional e derrotando os seus exércitos, saqueando os entrepostos genoveses na Criméia, levando seus cavalos até Volga.

Gengis então os chamou de volta, pois era preciso retornar às estepes, organizar os problemas do império, especialmente o da sucessão, e traçar os planos de futuras campanhas. Gebe e Subotai trouxeram enormes pilhagens dos povos vencidos e as notícias sobre os últimos descendentes dos hunos, “que vivem às margens de um grande rio chamado Danúbio”.
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