10 de nov de 2008

O credo dos ignorantes

Nestes tempos de ignorância religiosa crassa, surpreende a convicção com que muitos expressam suas crenças pseudocatólicas, que ferem os mais elementares critérios lógicos. Chega a existir um verdadeiro “credo” paralelo dos ignorantes.

Curiosamente, alguns católicos bem formados também se confundem ao ouvir expressões que faziam parte do patrimônio mais rudimentar da fé. Um exemplo acidental: a própria palavra “credo” já se tornou para muitos incompreensível.

Na época do Concílio, o cardeal Järger pediu um livro para aggiornar a catequese. Em 1966, os holandeses publicaram um novo catecismo que mereceu dois anos depois correções da Santa Sé. A essa altura, o então cardeal Ratzinger posicionou-se contra a elaboração de um Catecismo universal porque não estava estabelecida ainda uma linguagem comum: o aggiornamento precipitado fazia que os novos livros logo se tornassem ultrapassados e os fiéis ficavam cada vez mais confusos.

Nesse sentido, o então cardeal Ratzinger escrevia no n.º 1 da revista Communio brasileira (jan./fev. de 1982), referindo-se à tergiversação do conceito de alma:

Já que as “verdades fundamentais da fé” pertencem a todos os crentes e constituem até mesmo o conteúdo concreto da unidade da Igreja, a linguagem básica da fé não pode ser uma linguagem especializada. É por isso que a linguagem, enquanto suporte da unidade, não pode ler manipulada à vontade. A teologia, como ciência, precisa de uma linguagem especializada; em sua maneira de interpretar, ela tentará sempre traduzir os fatos estudados de uma forma nova. Mas tanto a teologia quanto a sua maneira de interpretação visam à linguagem fundamental da fé, que só pode continuar a se desenvolver na comunidade dentro da continuidade da Igreja em oração, e que não suporta rupturas brutais.
(…)
o abandono do conceito de alma, que se vem delineando cada vez mais claramente de uns quinze anos para cá, não mais se apresenta como um simples debate dentro da ciência, mas o que está sendo atingido com isto é o substrato linguístico da fé, sua linguagem fundamental, o que faz com que se atinja também o limite em que, além da interpretação, o conteúdo objetivo dos elementos a serem interpretados fica igualmente ameaçado de desaparecer.
(…)
Até então, a linguagem da esperança se formara na comunidade dos crentes que, em sua unidade através dos tempos, garantiram simultaneamente a identidade do que ela acreditava no processo de evolução progressiva dos termos e na formação de uma concepção integral da realidade que se encontra na base da fé. Evolução e identidade não se opunham, porque seu sujeito comum, a Igreja, mantinha a coesão entre uma e outra.
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