5 de mai de 2014

Entender para crer

Narrativa e verdade

Ariano Suassuna contava um caso engraçado, de um homem que, narrando um fato divertido, era interpelado por seu ouvinte por causa de uma inconsistência da historieta. O contador lhe retorquiu: — Você quer saber a história ou quer saber a verdade?

Entre o texto e a memória, entre a imaginação e a história: o que é possível encontrar aí? Sem dúvida, seria ingênuo esperar alcançar o próprio objeto da narrativa, tal e qual, isento de interpretações. Mas também seria doentio pensar que o objeto de estudo é uma mera tela em que se projetam ideias pré-concebidas.

Razão e crença

Na maioria das vezes, os argumentos contra a historicidade de algum testemunho antigo advém da ignorância do contexto ou do estilo, e da desconfiança na fonte.

Nossa racionalidade está, em alguma medida, baseada em conhecimentos de cunho probabilístico; portanto, não faz sentido opor razão e crença. Afinal, o conhecimento humano é todo baseado em crenças razoáveis.

Mito e filosofia

O mito é um caso particular nessa problemática. Sem autor nem data, o mito explica a realidade, mas não se explica a si mesmo. A crítica filosófica pretende acabar com a referência mítica, atitude que pode causar fragmentação e degenerar no relativismo filosófico e moral. A partir daí, torna-se crime de opinião voltar a buscar referenciais absolutos. Nasce a batalha entre a filosofia mítica e os mitos filosóficos. É o que vemos, por exemplo, na pós-modernidade decepcionada com as caducas profecias modernas de prosperidade através da ciência.

Logos e história

O cristianismo apropriou-se do discurso filosófico, mas os cristãos terão conseguido superar tal ruptura entre tradição e razão? Com efeito, é muito frequente deparar-se com católicos incertos quanto às suas raízes históricas e empedernidos em sua incoerência intelectual.

Enquanto discurso, a história sagrada tem cunho literário parecido ao mitológico; enquanto síntese teológica, a profissão de fé tem caráter comunitário e normativo. A articulação desses polos tem sofrido bastante diante de uma cultura cética e descrente da razão.

Tradição e teologia

Faz-se necessário resgatar a confiança na razão. Carl Rahner dizia que o homem é um ouvinte da Palavra: de fato, de nada adianta Deus falar se não houvesse alguém capaz de ouvir. Portanto, a missão da fé é compreender o que ouviu, explicitar seu fundamento.

Se o objeto da fé é racional, a teologia consiste no esforço de compreensão do objeto da fé. Não há razão para o medo protestante de que a teologia seja uma racionalização indevida da fé, uma construção idolátrica que falseie a verdadeira face de Deus.
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