20 de out de 2013

Dinâmica do pensamento arqueológico

Em meados do século XX, a arqueologia migrou da certeza positivista para a dúvida acerca da objetividade própria pesquisa, ao perceber o quanto o meio social determina as questões e suas respostas. Assim, a tensão entre a interpretação arqueológica e a história do pensamento cresceu, muito embora esta última pareça ganhar vantagem na medida em que oferece um posto de observação privilegiado desde o qual os méritos das diversas interpretações podem ser avaliados.

Além dessa análise interna do pensamento arqueológico, também convém ter presente o quanto ele interage com o contexto social. Por um lado, a arqueologia já foi tida por quem a contempla externamente como disciplina esotérica irrelevante, como fascínio romântico, como instrumento totalitário de reinterpretação da história, etc. Por outro lado, no seio da própria arqueologia muito já se especulou sobre a influência recebida do seu contexto social, já que é comumente aceito que nenhum fato é estabelecido fora de um marco teórico.

Nesse âmbito — seguindo Thomas Kuhn —, costuma-se falar de mudanças de paradigma (que seria o cânon consensual de prática científica), embora uns sustentem que essas transformações se dão a modo de revolução ou, segundo outros, gradualmente. No contexto das revoluções científicas, alguns atribuem essas mudanças a sucessivos inovadores (acumulação linear), enquanto outros buscam suas causas em novas ideias das ciências sociais ou em novos dados arqueológicos (processo não linear).

Não obstante, a par de quem aplique tais entendimentos ao pensamento arqueológico, há quem duvide que os conceitos teóricos da arqueologia tenham mudado significativamente ao longo dos períodos, pois é possível detectar ideias que se repetiram independentemente do contexto. O que efetivamente parece afetar o pensamento arqueológico é o enfoque regional ou, antes, a orientação política (colonialista, nacionalista, imperialista), ainda que isso não tenha impedido um frutuoso intercâmbio intelectual entre as escolas. Na mesma linha, as diversas especializações, com suas respectivas interações com as outras ciências afins, também parecem ter influenciado a interpretação arqueológica.

Em resumo, pode-se dizer que a arqueologia assistiu a ondas de inovação que se combinaram, sobrepuseram e interagiram, produzindo linhas de interpretação dos fatos para além dos marcos geográfico ou cronológico; linhas, porém, que se harmonizam graças a laços históricos e interesses metodológicos comuns.
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