10 de set de 2013

O escudo untado de sangue

A eleição real recaíra sobre Saul: um valoroso jovem de uma rica família benjaminita — a tribo menos importante de Israel — com um ardente anelo de grandeza e um profundo desejo do transcendente.

Não obstante, quando o inimigo acossa e cresce o clamor do povo, Saul sente medo… O ferro enfrenta o bronze numa guerra antiga… Mas na alma do rei trava-se uma batalha ainda mais violenta: eis a emocionante biografia de um homem dividido entre interesses contraditórios e a batalha por sua própria alma.

Todos deveríamos agradecer de não estar em seu lugar… Mas, embora o rei Saul tenha sido, aparentemente, “um passo em falso de Deus”, uma escolha equivocada, nada desmerece o seu heroico fim.

Uma péssima consulta

Partindo da concentração de Afec, o exército filisteu se dirigiu para a fértil planície de Esdrelão. O plano dos filisteus era conquistá‑la a fim de cortar em dois o território de Israel e controlar também as montanhas de Efraim pelo norte. Enquanto isso, acamparam em Sunam.

A fim de conter o avanço dos inimigos, Saul conduziu seu exército para a mesma área, nas proximidades de Jezrael; mas as forças eram desiguais. Saul consultou a Deus a respeito da sorte da guerra; não recebendo nenhuma resposta do efod, as sortes sagradas estabelecidas por Moisés, resolveu recorrer aos adivinhos e necromantes, superstição que ele mesmo banira de Israel.

De noite, em jejum o dia inteiro, dirigiu‑se disfarçado a Endor, diante das encostas do Tabor, à casa de uma mulher necromante, vestido com roupas modestas, acompanhado por dois homens. Chegou à sua casa e, jurando por Deus, disse‑lhe: “Como é certo que Deus vive, nenhuma culpa cairá sobre ti”. A bruxa de Endor falou: “A quem invocarei?” Saul respondeu: “Invoca‑me Samuel” (1Sm 28,10s).

Enchendo a medida da cólera de Deus, a mulher fez alguns passes, murmurou palavras especiais, e eis que Samuel surgiu da terra. Ela percebeu que o consulente era Saul, o qual se prostrou ao ver Samuel.

Saul explicou ao espectro que precisava de uma resposta de Deus acerca da sorte na guerra. Samuel lhe respondeu:

— “Por que ainda me consultas, quando YHWH se retirou de ti, tornando-se teu adversário? YHWH cumpriu o que tinha falado por meu intermédio. YHWH arrancou da tua mão a realeza e a deu ao teu companheiro Davi. Já que não obedeceste a YHWH e não levaste a cabo a sua cólera ardente contra Amalec, por isso YHWH hoje te fez isto. YHWH entregará contigo também a Israel nas mãos dos filisteus, e amanhã tu e teus filhos estareis comigo. YHWH entregará nas mãos dos filisteus também o exército de Israel” (1Sm 28,16-19).

Saul caiu como fulminado, profundamente apavorado. Depois de servido com uma vitela, retomou o caminho do acampamento.

A batalha de Gelboé

Saul tomou seus três filhos, Jônatas, Abinadab e Melquisua, e partiu com eles para a luta, ciente da morte certa e aguardando com frieza a fatalidade. Saul se sabia abandonado por Deus e deu início à batalha no furor do desespero.

O exército de Israel foi repelido; e o rei, com as forças que ainda sobravam em condições de lutar, recuou para o monte Gelboé, onde o ataque dos filisteus se tornara mais violento. Neste lugar, seus três filhos maiores caíram no combate.

Saul, ferido e desesperado, se lançou sobre sua espada para não cair com vida em mãos dos inimigos. Em seguida, não só os combatentes de Israel se dispersaram, mas também os habitantes da região fugiram de suas cidades, que foram ocupadas pelos filisteus.

No dia seguinte, a cabeça de Saul foi carregada como troféu pelas cidades da Filisteia, enquanto o corpo foi pendurado na muralha de Betsã. Na noite seguinte, porém, os habitantes de Jabes de Galaad, lembrando‑se de que, quarenta anos antes, tinham sido salvos por Saul, atravessaram o Jordão e, após retirar às escondidas seu cadáver, deram‑lhe piedosa sepultura sob seu terebinto.

O canto do arco

Ao terceiro dia, um estranho amalecita levou a Davi, que vivia acastelado em Siceleg, a coroa e o bracelete reais e lhe contou que Saul só conseguira cair morto por ter pedido sua ajuda. Davi ao sabê‑lo, mandou executá‑lo por ter levantado a mão contra o ungido do Senhor.

Depois, chorou amargamente e fez esta elegia, então consignada no atualmente perdido Livro do Justo (2Sm 2,19-27):

“A glória de Israel jaz ferida de morte nas tuas alturas!
Como caíram os bravos!

Não o conteis em Gat.
Não o proclameis pelas ruas de Ascalon,
para que não se alegrem as filhas dos filisteus
nem se rejubilem as filhas dos incircuncisos!

Montes de Gelboé, jamais caia orvalho nem chuva sobre vós
nem haja campos férteis!
Pois lá foi aviltado o escudo dos bravos:
O escudo de Saul, não untado de óleo,
mas com o sangue dos feridos, com a gordura dos bravos.

O arco de Jônatas não recuava
e a espada de Saul não voltava sem efeito.
Saul e Jônatas, amados e queridos,
nem a vida, nem a morte os pôde separar:
mais rápidos que águias, mais fortes que leões!

Filhas de Israel, vertei lágrimas sobre Saul,
ele que vos vestia de púrpura encantadora,
ele que pregava ornatos de ouro nos vossos vestidos!
Como caíram os bravos em plena batalha!

Jônatas, sobre tuas alturas ferido de morte!
Quanto estou dolorido por ti, Jônatas, meu irmão!
Quanto me eras caro e querido!
Tua amizade me era mais maravilhosa
que o amor de mulheres!

Como caíram os bravos
e pereceram as armas de guerra!”

Saul foi um herói?

Vale a pena recolher na íntegra o belo comentário de Flávio Josefo acerca da morte de Saul (Antiguidades Judaicas, VI, 15, 253):

“Julgo dever acrescentar outra reflexão, que pode ser útil a todos e particularmente aos reis, aos príncipes, aos grandes, aos magistrados, às outras pessoas constituídas em dignidade e a todos os que em qualquer condição estejam, têm a alma grande e nobre, a fim de inflamá‑los de tal modo ao amor da virtude que não haja penas nem tribulações que eles não aceitem, nem perigos que eles não desprezem e até mesmo a morte, para conquistar uma reputação imortal, dando sua vida pelo bem da pátria.

Nós vemos o que Saul fez, pois, ainda que Samuel o tivesse avisado de que ele seria morto com seus filhos na batalha, ele preferiu perder a vida a fazer uma ação indigna de um rei, para conservá‑la, abandonando seu exército, o que seria como entregá‑lo nas mãos dos inimigos. Assim, não hesitou em se expor com seus filhos a uma morte certa, mas julgou que seria melhor e muito mais feliz terminar gloriosamente seus dias, com estes, combatendo pela salvação da pátria e merecendo viver perenemente na memória da posteridade, do que o sobreviver à sua infelicidade, não ter mais uma posição e ser ainda tido em pouco na opinião de todos. Não poderia, pois, deixar de considerar já esse soberano, neste ponto, como muito justo, muito sensato, e muito generoso. E, se algum outro fez antes dele ou fizer no futuro a mesma coisa, não haverá elogios de que não seja digno. Pois ainda que aqueles que fazem a guerra na esperança de obter a vitória, merecem que os historiadores elogiem suas ações e seus feitos grandiosos, parece‑me que somente devem ser tidos como provectos na coragem os que, à imitação de Saul, preferem de tal modo sua honra à própria vida, que desprezam perigos certos e inevitáveis.

Nada é mais comum do que empreender aquilo cujo desfecho é duvidoso e de que, se houver sorte favorável, podem se auferir grandes vantagens. Mas nada poder prometer senão coisas funestas, estar mesmo certo de que se perderá a vida no combate e ir com coragem intrépida afrontar a morte, é o que se pode dizer o cúmulo da generosidade e da coragem. Foi isso que admiravelmente fez Saul; foi o exemplo que ele deu a todos os que desejam eternizar sua memória pela glória de suas ações, mas principalmente aos reis, aos quais a nobreza da própria condição, não somente não permite abandonar o cuidado de seus súditos, mas os toma mesmo dignos de censura se tiverem por eles apenas um a medíocre afeição.”
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