16 de jun de 2013

Vida gamão

— O gamão me lembra a vida, pois nos permite arriscar e, tendo sorte, o lucro é alto. Por outro lado, arriscar no gamão costuma ser fatal para a vitória, assim como é extremamente fácil se machucar vivendo na louca. Já jogou gamão? Se não, fica difícil de explicar.

— Só joguei ludo quando criança.

— Ludo é como brincar de boneca. Ludo está para gamão como boneca para filhos.

— Certo, mas e o fator sorte?

— No gamão joga-se diversas vezes — 11, 15 vezes seguidas —, a fim de minimizar o fator sorte. Cada contendor tem assim uma média equilibrada de azar. Ganhar é melhor que jogar no gamão: ele tem um cubo de apostas, com o qual você força o oponente a desistir no meio da partida dobrando o valor do jogo. Pois é melhor desistir logo do que teimar arriscando.

— Mas a vida não é sempre um jogo arriscado?

— É vero.

— Então que semelhança pode haver entre um jogo conservador e a felicidade dos ousados?

— Eu acho que quem quiser ser feliz nessa vida não deverá arriscar tanto. Você quer ganhar sempre? Só quer ver filme bom, ter um grande amor, uma linda família?

— Claro que quero. O que importa, em caso de sinistro, é como lidar com a perda.

— A felicidade não está em poder escolher, mas em fazer a escolha certa.

— Querer ser feliz eu quero, se será assim ou não, é outra história. =P

— As pessoas têm costumado buscar a felicidade na base da tentativa e erro. Os fracassos são carência de virtude, não de sorte.

— Você não arrisca a felicidade? Não quer ser feliz?

— Ninguém quer ser um loser! Mas querer não é poder. Tentar não é conseguir. Não queremos ser losers, e acabamos posers. Vou dizer uma coisa: só lidamos com as perdas causadas pela falta de virtude com o arrependimento. Com as causadas pelos azares, com o desprendimento.

— Acho que você tomou muita cerveja…

— O negócio é aprender a reavaliar o que queremos. No fim, tudo é só um jogo de gamão. :P


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