21 de jun de 2013

Suicídio espírita

A constituição da personalidade encontra-se entre a conservação da memória e a realização de um destino. A tese da reencarnação destrói tanto uma quanto a outra, ao negar a memória das vidas passadas e prever uma ineludível consumação futura.

O termo “reencarnação” é, aliás, bastante infeliz. É um neologismo (segundo o Houaiss, surgido em 1899) grosseiro, que malbarata o conceito de “encarnação” (a união da natureza divina com a natureza humana — corpo e alma — na única pessoa do Filho de Deus). De fato, a ideia da “reencarnação” supõe que o homem seja só alma, e que possa assumir diversos corpos em função de uma punição da qual não tem mais lembrança.

O nome clássico e correto para essa teoria é metempsicose, ou “transmigração das almas”. Oriunda da mentalidade grega, provavelmente a metempsicose implica a crença mais na solidariedade de vida (integração entre os viventes) do que na persistência da subjetividade.

Ou seja, a metempsicose garantiria a manutenção da vida coletiva, que rebrota como a água de vasos comunicantes. Assim, a vida dos indivíduos mortais fica relativizada. Tal crença levou Empédocles ao suicídio, lançando-se no Etna a fim dissolver a própria individualidade e integrar-se no todo, alcançando a imortalidade.

Por outro lado, como os gregos acreditavam que o saber é perene, a ascese pitagórica preferiu encontrar no conhecimento a forma de o homem assemelhar-se aos deuses e furtar-se à caducidade corporal. Solução um tanto “teórica”, mas certamente menos mortal que a de Empédocles…
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