4 de dez de 2012

Dilema espiritual

Ângelus (1857–59) de Jean-François Millet
É viável fazer oração e trabalhar ao mesmo tempo? É possível ter vida de oração e simultaneamente estar aberto às realidades mundanas e temporais?

Entendendo-se a oração como uma conexão vital e existencial com Deus, e uma forma de reconhecê-lo como o centro de toda a realidade, para um cristão que vive no mundo esse movimento para Deus implica, forçosamente, reconhecer que o mundo se integra na relação de Deus com ele e na sua relação com Deus. Ou seja: Deus lhe fala através do mundo e ele lhe responde através do mundo.

Isso parece contradizer uma longa tradição segundo a qual o recolhimento interior e a pobreza de espírito são condições ineludíveis para o diálogo com Deus. Ora, a oração requer, certamente, ir ao fundo e inclusive cortar o ritmo do acontecer quotidiano. Pois a fé só se sedimenta na alma e o sentido da presença de Deus só se faz mais intenso quando há serenidade de ânimo, nos momentos de quietude e silêncio.

Descortina-se, portanto, um caminho alternativo à fuga do mundo: é a via de aprofundar-se na realidade secular e temporal até perceber, com plenitude, seu sentido. Então se capta, com contornos mais claros, a missão que Deus outorga a cada um a respeito deste mundo.
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