13 de ago de 2012

A infidelidade no banco dos réus

Deserção não é solução para infelicidade: quem decai é infeliz precisamente porque decaiu.

O que explica a infidelidade? Não é o caso aqui de fazer referências a fatores sociológicos nem psicológicos — que não são verdadeiras causas —, enquanto o fator moral é ignorado. A origem do fenômeno da infidelidade está no âmago das decisões do indivíduo, é um problema moral, e opera em dois níveis.

Primeiramente, ocorre à pessoa infiel um empobrecimento do conceito de liberdade. Ela pensa que o homem é incapaz de conciliar seu livre-arbítrio com decisões incondicionais.

Em segundo lugar, ocorre-lhe uma desvalorização dos laços, como se fossem escolhas unilaterais ou sem consequências externas e sociais.

Em resumo: a infidelidade nasce da inflação da autonomia, da hipertrofia do individualismo.

O amor exige renovação, atualização, voluntariedade atual. Contra isso está nosso aburguesamento, nosso relaxamento, nossa preguiça. E a preguiça é pior que o ódio quando o seu oponente é o amor. O preguiçoso tende a orgulhar-se de ser assim; mas tal orgulho é extremamente nocivo, pois tende a criar um abismo entre as pessoas, um endurecimento interior e um afastamento que são grande ocasião de tentações.

O infiel em potencial, com a intenção de “evitar” seus (autoforjados) conflitos de consciência, começa a cogitar que nunca existiu o amor, retroagindo o mau momento atual para o início da relação, insinuando que então se era muito jovem ou sem o conhecimento suficiente do futuro ou que nunca se foi completamente feliz, etc.

Contra isso, é preciso ter presente que somos sim capazes de tomar decisões que orientem a vida numa direção determinada, definitiva e irrevogavelmente. Afinal, não é uma limitação da liberdade desconhecer os eventos futuros. Os condicionamentos advindos das novas situações não impossibilitam a felicidade, não a tornam impraticável por causa da decisão original. Se não pudéssemos ser consequentes até o fim é que não teríamos nem responsabilidade nem liberdade.

Por outro lado, a fidelidade não pode depender da possibilidade de realização efetiva dos sonhos, como se a infelicidade existencial procedesse da obrigação de se manter uma atual “situação indesejada”. O direito a esse tipo de felicidade seria insustentável para 99% da humanidade. O dever de cumprir as promessas é conditio sine qua non de toda sociedade e convivência. Os sonhos nos movem, mas nem sempre alimentam.
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