17 de jul de 2012

Comunicação amordaçada

A liberdade é um engodo para quem dela faz sua amante. Comprometa-se com a liberdade, mas não a torne sua cúmplice na traição dos princípios.

Por um lado, para comunicar — e comunicar a verdade — é preciso dar liberdade ao interlocutor, isto é, permitir-lhe uma saída honrosa, demonstrar-lhe que não se quer vencê-lo nem convencê-lo, mas ajudar a chegar mais perto da verdade.

Por outro, verdade se alcança mas não se abarca. A verdade se capta, mas não se captura. A verdade nos conquista, não é conquistada. Por isso, nossas palavras nunca a esgotarão, nunca a descreverão. Portanto, é possível dizê-la, mas não arquivá-la; é possível expressá-la, mas não retê-la.

Nossos tempos assistiram a justificáveis tentativas de diálogo, a esforços comunicativos, ao lançamento de pontes entre polemistas. Mas esse irenismo foi feito muitas vezes às custas dos princípios, às expensas da verdade.

E a verdade raptada é um simulacro. Sua beleza se esvai como a da mulher que, privada de seus segredos, nada mais tem a oferecer.

Anteriormente, já tinha comentado algumas dificuldades provenientes dos que anulam o diálogo pela manipulação do conteúdo ou pela agressividade. Agora, gostaria de citar dois vícios que minam a força persuasiva dos que, mesmo tendo abraçado a verdade, dela parecem ter vergonha ou pretendem comunicá-la despindo-a do atavio da sua contundência.

O primeiro vício é o circiterismo (“marcação por zona”). Equivale a referir-se a conceitos gerais, difusos, inovadores, aproximados ou subjetivos, como se fossem sólidos, claros e inquestionáveis. Obviamente, é lícito buscar os matizes oferecidos pelo espectro semântico dos termos, desde que isso se faça acompanhado da chave interpretativa que permita extrair o sentido preciso ali oculto. Assim, falar hoje de autenticidade, dignidade, direitos, amor, etc. praticamente significa falar nada, pois serve para designar qualquer coisa (grosseria, utilidade, impertinência, pederastia, etc.).

O outro vício é o recurso exagerado ao adversativo (“rir de gol contra”). Declara-se um princípio, o qual é imediatamente mitigado por uma cláusula. Até aqui parece bem; o problema está radicado no risco de tornar a exceção mais importante que a regra, ou o viés mais importante que o alvo.

Lembre-se: possui verdadeira liberdade quem fala a verdade com caridade, não quem finge tolerância impondo a ditadura do relativismo.

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Responda rápido:
Você tem medo de parecer intolerante por dizer a verdade?
Ou você carece de convicções por medo à verdade? 
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