11 de jun de 2012

Quatro sintomas literários

Reúno algumas ideias expostas por Alcir Pécora na Academia Brasileira de Letras a 3/4/12.

Segundo Bill Readings, autor de A Universidade em Ruínas, a literatura ocupava na virada do século XVIII para o XIX um posto central na cultura, entre outros motivos em virtude dos nacionalismos e do seu enfrentamento com a ciência.

Na era do pós-Estado (já que estamos na pós-era: a pós-modernidade é isso!), não há mais porquê a literatura manter tal centralidade. Por exemplo, desde os anos 60, a literatura vem marcada pela crítica da representação, pela crítica dos paradigmas. Ela sofre uma espécie de sanha iconoclasta, graças à esterilidade do relativismo literário que desautoriza a crítica literária.

Quatro são as consequências desse estado de coisas:

1. “Epifania linguageira”: centralidade da linguística no diálogo cultural, com um ufanismo míope e repetitivo. É o neossubstancialismo da linguagem, que a apresenta como mais um objeto entre as demais coisas.

2. Viver à época dos estudos culturais: rechaço da tradição normalizadora, com seus cânones dependentes da hierarquia política (raça, gênero, religião, etc.). Aceitação da literatura de testemunho, em que o trauma é nuclear e se faz, paradoxalmente, a última esperança ontológica do escritor. Interpreta-se a sustentação de cânones como tradicionalismo não revisionista. Cultura e minoria tornam-se os personagens de uma nova épica.

3. Doença do “presentismo”: a crítica do cânone inflacionou o corriqueiro e levou ao apogeu do arquivo, pois tudo parece valer a pena. “Se Vieira não anotar a profecia, ela ocorrerá antes de ser dita”. É o “museu de tudo”. Todos se sentem na necessidade de profetizar a própria experiência. Os eventos são patrimonializados. Sofre-se a vontade de mapear. É a abolição da hierarquia. O passado deixa de ser a infância do presente para se tornar a oportuna rapina do hoje. Enseja-se a positivação da multiplicidade e da diversidade. O coetâneo se justifica sem argumento e debate.

4. Literatura feita mera ilustração da teoria literária: impõe-se aos pesquisadores a química porca de ter de ler as obras com lentes pré-concebidas. A alienação se faz tamanha que se pensa poder extrair de grupos de obras “poéticas” e “teorias”.

Para superar tal fim de linha intelectual, é preciso dramatizar os aspectos dessa crise. O democratismo, em que cada um se faz artista de si mesmo, tem na internet uma aliada e na indústria cultural uma fonte de desvarios.

Por isso, abdicar de juízos de valor implica perder-se ao começar. Literatura é noética, sem o que só merece riso e patrocínio. Não se deixe levar pela indústria de sequestros literários. Seja crítico, mas um crítico exigente.
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