6 de mar de 2012

Leituras maçantes

O livro Lição Final primava por sua ausência entre minhas prioridades. Contudo, forçosas viagens de carro me levaram a “lê-lo” através de sua versão em audiolivro. Quanto mais avançava nos mp3, mais desejava que — de fato — aquilo fosse a lição final.

Numa dessas viagens, fiz um amigo ouvir comigo um pedaço. Ao chegarmos ao destino, ele declarou:

— Esse cara é fundamentalmente um chato!

Que Deus o tenha

Sem dúvida, o professor Randy Pausch foi uma pessoa singular. Informado que teria apenas seis meses de vida devido a um câncer, compareceu a Carnegie Mellon University para sua palestra final, intitulada Concretizando realmente seus sonhos de criança. Apenas cinquenta dias depois, mais de 25 milhões de pessoas já se tinham tornado seus admiradores. No livro em questão, ele deixa um legado para sua família e seus leitores.

Pode parecer chocante chamá-lo de chato, mas sinto a necessidade de concordar com meu amigo. Que eu reze por seu eterno descanso não me proíbe de afirmar que o livro foi um petardo.

Indícios da chatice

Chatice pode ser algo relativo. De qualquer modo, aponto alguns aspectos do livro que levaram a tal veredito:

Em primeiro lugar, vem o American way of life. Essa visão clichê acerca dos sonhos, conquistas e sucessos é demais para a cabeça.

Depois, vem esse tom de autoajuda autorizado pela morte. Se não anima vivo, quanto mais morto.

Por fim, vem esse paradigma de uma pretensa santidade laica. Randy Pausch praticamente é canonizado sem Deus. Não há cristão que o aguente.

O fim da linha

O final do livro é melancólico por duas razões:

Primeiro, o autor se apresenta como homem que sabe curtir a vida porque, próximo à morte, comprou um conversível e fez uma vasectomia. Já se vê quais eram seus valores. Por outro lado, essa aparente paternidade responsabilidade contradiz tudo o que ele afirmou sobre os próprios filhos. É como se dissesse: caso o câncer tivesse chegado uns meses antes, o caçula não existiria.

A segunda razão é sua falta de coerência cristã. É possível inferir da leitura que ele era protestante e que frequentava sua comunidade eclesial. Contudo, faz questão de não citar a Deus. Pior, afirma categoricamente que evitou na sua palestra quaisquer referências à religião para não suscitar divisões. Só que traz uma vaga citação de Krishnamurti: “Diga a seu amigo que quando ele morrer, uma parte de você irá com ele. Aonde quer que ele vá, você também irá. Ele não estará só”. Ou seja, se ele for para o inferno, você irá com ele. Não se entende como uma pessoa que se considera cristã pode pôr entre parênteses a Cristo, renunciar ao zelo pelas almas ou atuar sem esperança na vida póstuma.

Conclusão

Sem dúvida, é possível tirar coisas boas do livro e aprender do autor muitas virtudes. Contudo, diante da profusão de livros para ler, é sempre bom relembrar a distinção entre livros bons e livros inúteis.
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