26 de mar de 2012

Dois lados da secularização

do site http://prometheuscomic.wordpress.com/

Autonomia absoluta ou relativa?

O processo de secularização pode ser compreendido de dois modos: forte e brando.

A secularização forte refere-se a uma afirmação da autonomia absoluta do homem. É a reedição da visão prometeica do homem, em “versão revista e ampliada” pelos românticos, marxistas, nietzschianos, etc.

E assim, o século XX de fato conheceu os campos de concentração, a bomba atômica, os genocídios; e a sociedade tecnológica aprendeu a manipular a vida humana em tubos de ensaio e a produzir desastres ecológicos.

A secularização branda, por sua vez, refere-se a uma afirmação da autonomia relativa do temporal. É uma desclericalização da visão de mundo, uma abertura ao diálogo tolerante.

Deve-se reconhecer que tal abertura algumas vezes foi realizada em detrimento da própria identidade cristã, ou que se ressentiu da falta de uma linguagem comum com os secularistas.

Voltar a comunicar

Por outro lado, o atual momento cultural, considerado a “era da comunicação”, oferece uma oportunidade ímpar, graças à capilaridade da difusão das ideias, tanto de corrigir o exagero da secularização forte quanto de extrair o melhor da secularização branda.

O problema, contudo, é que o futuro da cultura não depende tanto das novas técnicas de comunicação, mas da visão de homem que tais técnicas veiculam. E, ainda que a maioria das pessoas esteja farta dos excessos ideológicos da modernidade, permanecem muitas ambiguidades no panorama cultural e o economicismo, o hedonismo e o relativismo moral continuam a ser propagandeados globalmente.

Ou seja, a globalização cultural pode significar homogeneização em torno a elementos deletérios e fragmentários caso não se faça um esforço positivo de comunicar a verdade sobre o homem.

Em outras palavras, não basta ficar no cínico grito de S.O.S. da primeira onda pós-moderna, que condenou o homem moderno sem nada propor: cabe reconstruir a identidade do ser humano, agora não mais como absolutamente autônomo, mas como ao mesmo tempo livre e dependente do Criador.

Crise presente, futuro certo

A crise do mundo contemporâneo, herdeiro de dois séculos de secularização forte, nasceu depois da Primeira Guerra Mundial e não parece ter solução imediata, pois é preciso mudar a forma de encarar o homem, renovar a antropologia. É forçoso reconhecer que essa tarefa supera o mero esforço comunicativo.

Deus é o Senhor da história, mas a história é simultaneamente o produto das livres decisões dos homens. Como se coadunam o domínio divino e a liberdade humana é um mistério. Em vez de tentar elucidá-lo ou antevê-lo, cabe-nos assumir nossa parcela de responsabilidade.
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