19 de dez de 2010

Matrimônio virginal

Em vez de apresentar a prometida hipótese desenvolvida por D. Bernard Orchard OSB, achei melhor publicá-la na íntegra aqui.

Não obstante, gostaria de finalizar a exposição que venho fazendo sobre a virgindade de Maria, tecendo mais algumas considerações que me parecem pertinentes.

Dificuldades textuais

Os Evangelhos são ambíguos ao tratar dessa temática, ou pelo menos dão margem a dúvidas. Por exemplo, por ocasião da Anunciação Maria e José ora parecem noivos (Lc 1,27), ora casados (Mt 1,19s).

Outra fonte de questionamento são os citados “irmãos de Jesus”, como Tiago e José (Mt 13,55). Este problema é mais simples, pois além de a expressão ser um hebraísmo, a própria Bíblia atesta que esses parentes são filhos de “outra Maria” (Mt 28,1), discípula de Cristo.

Dentre todas essas passagens dificultosas, a que talvez tenha dado margem às especulações mais significativas foi a da pergunta de Maria ao Anjo Gabriel  (Lc 1,34):

— “Como se fará isto [a concepção de Cristo], se não conheço homem?”

Com base nessa frase, desenvolveu-se a interpretação tradicional segundo a qual Maria teria feito um voto de virgindade anterior à Anunciação.

Existem, contudo, outros entendimentos. Com efeito, parece que não havia no Israel da época um contexto sócio-cultural para que se fizessem votos de tal espécie:

a) Desde Caetano (†1534), alguns autores entendem o “não conheço homem” no sentido de “não conheço homem agora neste momento em que estarei concebendo”.

b) Outros intérpretes justificam a pergunta de Maria como mero recurso literário de Lucas para introduzir a explicação dada pelo Anjo.

O parto virginal na Tradição

A virgindade de Maria manifesta a gratuidade da Redenção e a filiação divina de Jesus. Sua virgindade é um sinal de aceitação dos planos divinos e de que os tempos chegaram à sua plenitude.

Por outro lado, o senso da fé explicita que, em atenção a tal disponibilidade de Maria, Deus correspondeu com um parto milagroso que lhe conservou a virgindade, pelo que Maria gerou sem dor quem concebera sem prazer.

Com efeito:

a) Se o Filho de Deus não corrompe o Pai ao ser gerado eternamente, também não corrompeu a Mãe ao ser gerado no tempo.

b) Se o Filho de Deus veio curar, não poderia ferir a Mãe.

c) Se o Filho de Deus manda honrar os pais, também santificou a Mãe.

Razões para um matrimônio virginal

“A compreensão que Cristo tem de si mesmo exige que viva célibe no mundo: os filhos no Antigo Testamento são uma bênção, porque significam a vida, o fruto e o caminho até a promessa. Mas Cristo é já ele mesmo a promessa, a vida e o futuro. Ele é o ponto final porque é a abertura àquela vida que está mais além da biologia e da morte. Por isso, ele mesmo define a existência escatológica como uma existência virginal. Agora tem a virgindade um sentido (que antes de Cristo não tinha): a realização direta da fé na vida eterna já presente” (Joseph Ratzinger, Zur Theologie der Ehe, Tübinger Theologische Quartalschrift, 149 [1969] 53-74 [PDF]).

Por isso, a Virgem Maria também foi virgem depois do parto, e viveu um matrimônio virginal com José:

a) Se Jesus é o Unigênito do Pai, devia ser também o Unigênito da Mãe.

b) Outros filhos nascidos de Maria ofenderiam o Espírito Santo que a fecundara.

c) Consumar o matrimônio depois da geração de Jesus teria sido indigno da santidade vivida por Maria e José.

A santidade típica dos “nazarenos”

Estudos recentes acerca das origens do Cristianismo apontam para a possibilidade de ter existido um movimento religioso na região da Galileia, de inspiração batismal, movido pela iminência do Reino de Deus e ligado à instituição do nazireato, antigo costume de Israel pelo qual as pessoas se consagravam a Deus (cf. Nm 6,1-21).

A cidade de Nazaré, nunca antes citada na Bíblia, pôde ter sido o berço ou o centro de difusão dessa tendência que serviu de matriz para o Cristianismo. De fato, o epíteto “nazareno” parece referir-se mais ao estilo de vida do que ao toponímico (cf. At 24,5).

Da mesma época são os famosos essênios (Flávio Josefo, Vida, II, 10-12), assim como os mandeusebionitas e alexaítas. Entretanto, as alusões aos antigos grupos “paracristãos” são tão abundantes quanto vagas. Perderam-se no vórtice da história, embora de quando em quando surjam seitas que pretendem recuperar a suposta pureza primitiva (batistas, judeus messiânicos, etc.).

Virgindade que ilumina o matrimônio

A eminência do Reino de Deus comporta uma urgência que tudo relativiza, inclusive o matrimônio. Mesmo assim, o matrimônio encontra seu sentido mais profundo no Cristianismo, pois se o celibato antecipa o futuro escatológico, o matrimônio cristão torna realidade o ideal passado no paraíso.

Sem dúvida, viver um matrimônio cristão — monogâmico e indissolúvel — hoje pode parecer difícil, mas realiza o casal de forma mais profunda, na medida que faz o homem e a mulher transcenderem o efêmero. O Cristianismo, vivido tanto no matrimônio quanto no celibato, transporta-nos da temporalidade.

Pode-se dizer que indissolubilidade do Matrimônio é o último aspecto do ideal da exclusividade amorosa. A monogamia vem se impondo e tende a ser aceita em todas as culturas. A fidelidade é prezada apesar de tristes experiências e até justamente por elas. A indissolubilidade, porém, parece menos evidente.

Embora a franca maioria das pessoas entenda a exclusividade amorosa como conveniente, muitos receiam projetá‑la ao longo do tempo. A cultura contemporânea imediatista vê dificuldades em compromissos de longo prazo, e enxerga a entrega irreversível como algo obscuro.

É preciso reconhecer a grandeza do ser humano: ainda que preso à vicissitude temporal, o homem não se rege pelo tempo, pois o transcende enquanto pessoa. Assumir um compromisso amoroso ad tempus, circunstanciado, é indigno de si, desleal para o outro, nocivo para a sociedade.
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