13 de set de 2010

Gaudério Tareco vira abóbora


Quando Gaudério começou a trabalhar, teve de lidar com um problema para ele novo até então: seu chefe gostava de lhe passar tarefas extensas e importantes no fim do expediente e, especialmente nas sextas-feiras.

— Chefe, não dá, porque depois de certo horário eu viro abóbora.

É óbvio que ele não se considerava a Cinderela, mas mesmo uma abóbora tem a sua dignidade.

Ah, aqueles tempos juvenis! Em que Gaudério podia deliciar-se com os contos de fadas… Se não os lera diretamente da pena de Charles Perrot ou dos livros de Andersen, pelo menos os ouvira nos antigos disquinhos de vinil cuja narração e sonoplastia excitavam-lhe a imaginação.

Princesas e dragões, bruxas e piratas, fadas e valorosos companheiros. — Existem de verdade? Ou só há gordas e chefes, sogras e assaltantes, pedaços de mal caminho e invejosos?

Gaudério riu-se ao lembrar dos “Contos da Bruxa Madrasta” que ele mesmo escrevera nos tempos da adolescência. Talvez tivesse estado influenciado pela sanha demolidora dos que diziam Tiradentes não ser herói, ou Cabral não ser descobridor, ou Dom Pedro ter feito nossa Independência por causa de uma diarreia.

Os “Contos” eram prefaciados por uma explicação “científica”, inspirada nos dados aprendidos do seu professor de História do Brasil: as princesas eram banguelas porque naquele tempo não havia dentifrício.

Como tive a oportunidade de ler tal caderno de “Contos”, farei questão de transcrever alguns aqui. Por enquanto, porém, retornemos às gentes de carne e osso.

Gaudério conseguiu desvencilhar-se do chefe para voltar para casa antes de virar abóbora. No caminho do metrô, viu uma cena curiosa: um rapaz simpático, magro, de mediana estatura, andava de mãos dadas com uma mulher. Todos olhavam para ele. Das calçadas, das janelas dos ônibus, dos bares. Olhavam para ele, e não para o mulherão que ele puxava pela mão. A mulata alta, de cabelo alisado, acastanhado e esvoaçante, reclamava de algo que ele, todo faceiro, parecia desconsiderar enquanto a arrastava com um simples puxão de mão. Nos olhos de todos uma pergunta se patenteava: — O que esse cara de fuínha tem para ela gostar dele?

Gaudério entrou no metrô. Começou a escutar o diálogo entre duas empregadas atrás de si, que metiam o malho nas respectivas patroas:

— Fritei umas batatas. Costumo deixar a frigideira esfriando no forno antes de limpá-la. Só que na sexta-feira esqueci a frigideira lá. A dona resolveu esquentar uma pizza no sábado e deu com a frigideira! Hoje a velha me chamou e disse: “Você costumava ser mais dedicada, mais atenta. O que aconteceu com você? Quero que lave tudinho!”

— Pois a minha patroa tem mania de limpeza. Quando morrer, a terra vai comer o nariz dela, porque sente cheiro de gordura em toda parte. Não é que veio me perguntar se eu usei pano engordurado para limpar o quarto dela? Vive falando de higiene. Será que pensam que a gente é suja só porque é pobre?

Faltava pouco para o trem fechar as portas e partir. Nova cena curiosa. Surgem quatro adolescentes. As duas gurias não eram de se jogar fora, mas os dois rapazes que as acompanhavam eram espécimes raros. Para começar, a indumentária carecia tanto de elegância quanto de virilidade. Ao cabelo faltavam tanto alinho quanto masculinidade. Por fim, o porte não era ereto nem decidido. Quando o metrô apitou, os quatro saíram correndo como se tivessem esquecido de saltar na estação. A situação era definitivamente bizarra, pois ali era o ponto final. O que dizer de tudo isso? Que as princesinhas se faziam de rainhas e os mocinhos bancavam dançarinas de cancã. Triste época em que se tem orgulho de renunciar ao próprio gênero e vergonha de portar-se conforme a idade.

Mas Gaudério estava cansado da labuta e desconsiderou essa turminha que mais parecia um grupo de hobbits saídos dos livros de Tolkien.

O metrô partiu. E ele virou abóbora.
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