29 de set de 2010

Sete Arcanjos

Visto que a Pedra de YHWH tem “sete faces” (Zc 3,9), e que “as sete chamas são os olhos do Senhor que estão percorrendo o país” (Zc 4,10b), são igualmente sete os “Anjos da Face”, os quais assistem “diante da claridade do Senhor” e têm “acesso à sua presença” (Tb 12,15). Também são sete os entes venerados no Zoroastrismo como campeões da luta contra o mal, representantes dos sete astros maiores: o Sol, a Lua e os cinco primeiros planetas.

“YHWH, Deus dos exércitos, quem é como tu? És poderoso, YHWH, e tua fidelidade te circunda” (Sl 89[88],9). Entre esses defensores da Igreja e da doutrina da fé, a Tradição conta o arcanjo Miguel, “um dos Príncipes” (Dn 10,13), “chefe dos Exércitos do Senhor” (Js 5,14), que vai adiante do povo como líder e protetor.

O segundo é Gabriel, o Anjo da Revelação: “força de Deus” que vem nas suas asas explicar os sinais dos tempos e anunciar o nascimento do Precursor e advento do Messias. O terceiro é Rafael, o Anjo da Providência: “medicina de Deus” para os justos sofredores como Tobit; apresenta ao Senhor as orações dos piedosos e com seu poder a tradição relacionou a propriedade curativa da piscina probática de Jerusalém.

A curiosidade religiosa buscou os nomes dos demais, aliás, sem sucesso. Diz o filho de Sirac: “O nome de Deus não seja frequente em tua boca, nem o mistures aos nomes de seus anjos, pois não estarás imune de ofendê‑los” (Eclo 23,10).

Para perfazer a representação dos quatro pontos cardeais, pelo menos um arcanjo é majoritariamente reconhecido fora do cânon bíblico, encontrando aceitação inclusive na iconografia cristã e na liturgia (é celebrado pela Igreja Copta a 28 de julho). Oriundo da apocalíptica judia, tal arcanjo seria Uriel, o Anjo da Retribuição: “fogo” ou “luz de Deus” para interpretar as profecias (4Esd 4,1; 5,20). Identificado por alguns apócrifos com o querubim que guarda o Éden, também é confundido com o anjo que lutou com Jacó, talvez porque, em Henoc 40,9.17, Fanuel (cf. Gn 32,31s) tome o seu lugar. John Milton fá‑lo regente do Sol (Paraíso Perdido, III, 689).

Segundo o livro de Henoc, os demais arcanjos seriam Reguel (“desejo de Deus”), Sariel (“temor de Deus”) e Remiel (“exaltação de Deus”). Na literatura apócrifa e nas relações rabínicas ainda são nomeados muitos outros: Jerameel, Baraquiel, Judiel, Cedequiel, Selafiel, etc.

Devido a exageros na devoção aos anjos, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé proibiu que sejam designados, até na devoção particular, com nomes que se julguem ser os seus nomes autênticos, mesmo com base em presumíveis revelações privadas, exceto Miguel, Gabriel e Rafael, que aparecem na Escritura canônica. Também se mandou rechaçar a ideia errônea de que o mundo e a vida estão submetidos a tensões demiúrgicas (cf. Congregação para o Culto divino e a disciplina dos SacramentosDiretório sobre a piedade popular e a liturgia, 217).

Isso não impede que possa haver discrepâncias entre os anjos por motivo de custódia; nesse caso, sem serem contrárias suas vontades e interesses, consultam a Sabedoria divina acerca de méritos contrários e incompatíveis entre si dos seus protegidos (Dn 10,13; São Tomás de AquinoSumma Theologiæ, Iª, 113, 8).
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