4 de jan de 2010

Quando nasce o amor

É mais ou menos assim o começo do livro Sumri, de Amós Oz
Sumri dizia baixinho o nome da sua amada ao tomar café: — “Esti”, ao que o pai dizia: — “É proibido mastigar com a boca aberta”. No banheiro escrevia seu nome na água da pia enquanto seus pais reclamavam: — “Esse menino maluco se trancou de novo no banheiro e brinca com água”. Sonhava com ela o acusando e perseguindo com muitos outros garotos até chegarem juntos a um lugar solitário onde acordava… Sumri chegou a escrever dois poemas de amor numa caderneta preta que perdeu no bosque de Tel Arza.
    Sumri era o apelido que ganhou da turma na sexta série quando disse ao professor de geografia, sem ter nada a ver com a aula, que Sumri era outro nome do lago Hula; mas naquele dia Esti lhe mandou um bilhete onde dizia:

Seu maluco, por que você sempre diz coisas que criam problemas para você? Pare!

O que Esti sabia então? Nunca tinha tido a idéia de pôr na sua mochila um poema de amor como fez o Marco com a Patrícia, nem mandou a casamenteira da Marcela falar com Esti como o Tiago fez, também para a Patrícia.
Pelo contrário, Sumri sempre puxava Esti pelas tranças, colava sua linda malha branca na carteira com chiclete, lhe torcia o braço por trás até que ela lhe xingasse e cravasse as unhas porém sem nunca reclamar, e lhe dava o apelido de Tina Tangerina cantando a música “Ó querida, ó querida, ó querida Clementina”.
A primeira coisa que Esti falava para Sumri de manhã na escola era “Nojento” ou “Seu nojento”. Duas ou três vezes Sumri fez Esti chorar na hora do recreio, a ponto de que a professora Melinda lhe aplicou castigos que suportou como homem, de boca fechada. Assim nasceu o amor, pois se Esti chorou por Sumri de manhã, ele chorou por ela à noite.

Coração, curiosidade e intimidade
Essa é a idade das situações imaginárias, da dificuldade de concentração, da suscetibilidade e instabilidade emocional, da reflexão; período da puberdade, em que rapidamente ocorrem modificações anatômicas, psicológicas e sociais; então aprendemos a valorizar a solidão, a intimidade, a elegância e a sexualidade.
As meninas deixam de ser aquelas chatas e passam a nos interessar. Os rapazes gostam de ver e, por isso, a curiosidade se apresenta ao mesmo tempo como um perigo e uma barreira: o problema é que as meninas gostam de ouvir, falar e serem compreendidas. Querer conhecer sua intimidade as pode ofender e soar-lhes à invasão.
O amadurecimento (e a consequente conquista de um grande amor) dependem de assimilar o valor da intimidade, guardando a própria e respeitando a dos outros. Pudor e modéstia.

Mas você ainda tem pudor?
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...