26 de out de 2009

Sucesso e derrocada do barbarismo



O conceito de “bárbaro”
O mundo clássico designou assim aos povos vizinhos: os celtas eram bárbaros para os romanos, os germânicos para os gauleses, os eslavos para germânicos, os do sudeste da China para os chineses do Rio Amarelo.

Por causa da condição geográfica dessas regiões, a agricultura se impôs como estilo de vida a seus habitantes, permitindo que superassem o primitivismo. Assim, na Baixa Idade Média, desde a Europa até Extremo Oriente, os povos tinham atingido o mesmo estágio de civilização.

Contudo, o cinturão de estepe da Eurásia Central, penetrado ao norte pela floresta siberiana, só permitia poucas áreas de plantio, forçando seus habitantes a uma vida nômade e pastoril, como no período neolítico. Na Sibéria, perdurava a cultura da caça.

A preservação do barbarismo nas estepes e nas florestas foi um importante fator no drama da história: era como se homens do segundo milênio a.C. convivessem com pessoas do século XII d.C. Para passar de um grupo a outro, bastava descer da Mongólia Superior para Pequim ou subir da estepe do Quirguistão para Ispahan, no Irã. Para os europeus, iranianos e chineses, os bárbaros eram tidos como selvagens — cuja má fama era estendida até com a calúnia do canibalismo, como aparece num manuscrito inglês do século XIII acerca dos mongóis — que poderiam ser intimidados por ordem de armas, contas de vidro, títulos nobiliárquicos, etc., e mantidos a uma respeitosa distância da terra cultivada.

Por outro lado, para os pobres pastores turco‑mongóis, aproximar‑se das hortas viçosas, das vilas relvadas e do luxo das cidades era um choque: o milagre ou o segredo do trabalho meticuloso requerido para a manutenção dessas colméias humanas estava além da sua compreensão. Se ficavam fascinados, era como o lobo – seu totem – quando no inverno se aproxima das fazendas e espreita sua presa metida numa cerca. Também ele tinha o velho impulso de invadir, tomar e escapar com seu butim.

O desenvolvimento paralelo de duas comunidades tão díspares não apenas representou um patente contraste econômico, mas também social. Nessas circunstâncias, a invasão pelos nômades das áreas cultivadas foi lei de vida. Além disso, os turcos e os mongóis, com sua veia prática, tinham aptidão para o comando. Quando uma cidade caía massacrada, os nômades poucas horas depois tomavam assento nos mais altos tronos, sem qualquer vergonha, como grande cã da China, rei da Pérsia ou imperador da Índia, sabendo adaptar‑se à praxe local.

Contudo, se o cã achinesado ou “iranizado” não era removido numa rebelião local, mas cedo ou mais tarde teria de enfrentar novas hordas famintas que tentariam repetir sua aventura.

O sucesso do barbarismo
Como a empresa bárbara foi quase sempre bem sucedida, ocorrendo ritmicamente ao longo de treze séculos, desde os hunos até os manchus? É que os nômades, apesar de atrasados em cultura material, possuíam uma tremenda ascendência militar: eram os arqueiros montados de incrível mobilidade. Ainda que os povos conhecessem essa arma, os mongóis eram imbatíveis porque desde crianças galopavam nas vastas estepes caçando para sobreviver. Não se confrontavam freqüentemente com os inimigos, mas sabiam cansá‑lo com ataques fulminantes, aparições e sumiços, perseguições intimidativas. A mobilidade ludibriadora da sua cavalaria era como uma inteligência de guerra.

As falanges macedônias e as legiões romanas passaram porque nasceram da constituição política dessas nações: eram criações de estados organizados que, como estes, nasceram, cresceram, subsistiram e desapareceram. O arqueiro montado da estepe reinou na Eurásia por treze séculos porque era fruto da própria terra, filho da fome e da necessidade, única forma de sobrevivência.

A derrocada do barbarismo
O que pôs fim a esta superioridade? Como no início do século XVI os nômades não mais subjugaram os povos sedentários? A razão é que então estes últimos recebiam aqueles com artilharia, ganhando do dia para a noite uma artificial ascendência militar. O bombardeio com que Ivã o Terrível recebeu as últimas levas da Horda Dourada e com que o imperador K’ang-hsi da China bateu os calmucos marcou o fim de um período da história mundial. Pela primeira vez, e desde então, a técnica militar mudou de campo e a civilização se tornou mais forte que o barbarismo. Apenas os calmucos do romântico czar Alexandre I, que marcharam contra Napoleão em 1807, surgiram fora de época. Somente trezentos anos passaram desde que esses arqueiros deixaram de ser os conquistadores do mundo.
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