20 de set de 2009

Le Corbusier


Em fins do século XIX a arquitetura passava por uma crise, devida à defasagem existente entre a prática da profissão — então de cunho historicista e por isso estagnada com a decadência do ecletismo — e as inovações tecnológicas. Desde 1774, John Smeaton idealizara o concreto armado e o ferro produzido em escala industrial vinha sendo utilizado na construção de pontes e como estrutura de teatros e fábricas à prova de fogo: entretanto não se considerava seu apelativo formal e era desprezada sua função na arquitetura.

O modernismo na arquitetura nasceu desse impasse, buscando uma linguagem nova, aparentemente desvinculada do seu passado imediato, cujo máximo valor seria a funcionalidade. Daí a supressão do ornamento, a revalorização da arquitetura gótica no seu aspecto funcional, a assimilação das novas tecnologias já empregadas pelos engenheiros e o ideal de uma arquitetura acessível a um maior número de pessoas.

Auguste Perret foi o primeiro arquiteto a dar expressividade arquitetônica a estruturas de concreto armado, seguindo a linha Art Nouveau (funcionalidade, planta livre, novos materiais). Em 1908 e 1909 teve junto a si trabalhando um jovem suíço de 20 anos, Charles-Edouard Jeanneret-Gris, que já projetara 3 anos antes sua primeira casa (Fallet, em Chaux de Fond, sua cidade natal), para um colega da Escola de Artes Aplicadas, onde esteve trabalhando com metal. Em 1907 já estivera em Budapeste e Viena e irá da França para a Alemanha, a mando da Escola de Artes de Chaux de Fond, em 1910 para estudar a evolução da arte decorativa, vindo a ser professor de arquitetura em 1912.

Sua preocupação inicial será desenvolver um sistema de produção em série industrial de casas, chamadas casas dominó (1914-1915), basicamente estruturas livres independentes das funções que nelas se pode realizar. Em 1917 mudará definitivamente para Paris. No ano seguinte perderá a vista esquerda, mas publicará com o pintor Amédée Ozenfant o manifesto Depois do Cubismo. Logo publicarão regularmente a revista L’Esprit Nouveau, que combaterá a «falsidade, truques e máscaras de cortesão», «o floreio das plantas… a folhagem, pilastras…» que dominavam a arquitetura francesa, ainda dependente da tradicional Escola de Belas‑Artes.

Desse período são as casas «Citroën», edifícios‑caixotes para serem produzidos em escala industrial, a adoção do nome Le Corbusier, tomado de um antepassado, e a instalação do seu atelier em sociedade com o primo Pierre Jeanneret. Em 1922 inicia seus ensaios urbanísticos idealizando uma cidade para 3 milhões de habitantes. Em 1923 publica seu best‑seller «Por Uma Arquitetura», coletânea dos seus artigos em L’Esprit Nouveau. Aí aparece a «reinvenção» da casa: é tida por ele como uma «máquina de morar». Além de polêmicas mesquinhas, há artigos de grande valor nos quais propõe força e clareza formal para a arquitetura. No mesmo ano conhece Walter Gropius, que fundara a Bauhaus (escola alemã de artes em cuja base está a educação artesanal).
Suas idéias porém não tinham fácil assimilação: na Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas em Paris, os organizadores esconderam durante a cerimônia de abertura o seu Pavillon de L’Esprit Nouveau como se fosse uma afronta.

Em 1927 formula em 5 pontos programáticos a nova estética fundamental da arquitetura, baseado na sua já vasta experiência profissional: pilotis, terraço‑jardim, planta livre, janela em fita e livre composição da fachada. Aplicou esses princípios no projeto para o Palácio das Nações em Genebra, que, apesar de receber o primeiro prêmio no Concurso Internacional de Arquitetura, não foi construído. Víctor Horta, que construíra a primeira casa Art Nouveau em 1893, sendo jurado, foi um dos que impediram com seu contraditório conservadorismo tal ascensão do modernismo.
Le Corbusier abriu então seu próprio caminho: foi em 1928 um dos membros fundadores do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM). No ano seguinte viaja pela América do Sul, realizando estudos urbanos de São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires.

Voltará ao Rio de Janeiro em 1936, onde participará, com a anuência do Presidente Getúlio Vargas, dos projetos do Ministério da Educação e Saúde e da Cidade Universitária. O Edifício Gustavo Capanema foi esboçado às pressas por Corbusier, mas o traço final ficou por conta da equipe brasileira, composta de Lúcio Costa, Affonso Reidy, Carlos Leão, Ernani Vasconcellos, Jorge Moreira e o jovem Niemeyer, tornando‑se um marco inaugural da arquitetura erudita brasileira, explicitamente filiado à arquitetura moderna européia. Grande destaque deve‑se dar ao uso do brise-soleil.

Em 1944 foi publicada a Carta de Atenas, documento acerca da funcionalidade da cidade contemporânea que compila as reflexões do CIAM de 1933 e os posteriores desenvolvimentos realizados por Le Corbusier.

Na década de 40, começará a trabalhar com o «modulor», sistema de medição aplicável à arquitetura e à mecânica baseada nas proporções humanas. Albert Einstein lhe escreveria dizendo ser «uma gama de dimensões que torna o mal complicado e simples o bem». Foi patenteado em 1947.

Nos anos 50 trabalhou mais preocupado com a expressividade formal, abndonando os protótipos. Dessa época é a famosa capela de Ronchamp e a nova cidade de Chandigarh, na Índia. Projetou ainda muitas propostas urbanas e edifícios, até a sua morte, em 1965. Ao longo de sua vida as suas obras foram sendo agrupadas em 7 tomos de sua Œvre Complète.

Além de importante pintor, Corbusier foi considerado o arquiteto do século. Porém o seu valor não se restringe à vasta obra arquitetônica, mas à sua profunda teorização e influência.
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